Na eterna busca pelo que é, por seu significado e seu papel, o Homem, um órfão cósmico, precisa saber que a estrada deve ser buscada acima dele.
Por Loren Eiseley
Quando eu era garoto - naquela idade indefinida mas importante em que se começa a perguntar: quem sou eu? Porque estou aqui? Que espécie é a minha? O que está crescendo? O que é o mundo? Por quanto tempo vou viver nele? Para onde irei? - , encontrei-me caminhando com um amiguinho por uma ponte ferroviária alta, que se estendia sobre o riacho, uma ponte rústica e uma estrada. Podíamos olhar temerosos, por entre os dormentes, para os bancos de areia e as ondulações na água que brilhava uns 15 metros abaixo. Estávamos também fazendo uma coisa proibida, contra a qual nossos pais sempre nos advertiam. Não deveríamos ser pegos por um trem na ponte preta. Algo terrível podia acontecer, uma coisa chamada morte.
Do pilar de sustentação da ponte olhamos para a água, lá embaixo, e vimos entre os seixos a forma de um animal que só conhecíamos de livros ilustrados – uma tartaruga, uma enorme tartaruga castanho – avermelhada. Deslizamos aterro abaixo para observá-la mais perto. Da pontezinha que ficava cerca de 1 metro acima do riacho, vi que a tartaruga, cujas lindas riscas brilhavam ao sol da tarde, não estava viva e que suas patas eram movidas ao léu pela impetuosidade da água. A razão de sua morte era evidente. Não muito tempo antes de subirmos até o elevador ferroviário, alguém que se distraía com um rifle de repetição tinha pontilhado a carapaça da tartaruga com buracos de bala e seguira seu passeio.
Meu pai me explicara certa vez que era preciso muito tempo para fazer uma tartaruga grande, muito anos mesmo, à luz do sol, na água e na lama. Virei a antiga criatura de patas para cima e passei os dedos pela conha desenhada, com suas pobres patas se movendo grotescamente. A pergunta surgiu espontaneamente. Porque o homem tinha que matar uma coisa viva que jamais poderia ser substituída? Depositei a tartaruga na água e dei-lhe um empurrãozinho. Ela entrou na corrente e começou a derivar. “Vamos para casa”, disse ao meu companheiro. A partir daquele momento, acho que comecei a crescer.
“Papai”, disse eu à noite, junto ao lampião da nossa cozinha, “Conte-me como os homens vieram parar aqui?” Meu pai se deteve. Como muitos outros pais da época, estava cansado ao fim de longas horas de trabalho, não tinha muita instrução, mas possuía uma voz bonita e sonora e nascera numa fazenda na fronteira. Conhecia todo ritual com que os índios das planícies começavam uma longa história.
“Filho”, disse ele, tomando como nosso modelo de outro povo, “era uma vez um pobre órfão”. Disse isso de tal jeito que me sentei a seus pés. “Era uma vez um pobre órfão que não tinha ninguém que lhe ensinasse seu caminho e seus costumes. Às vezes eram os animais que os ajudavam, às vezes eram os seres sobrenaturais. Mas, acima de tudo, uma coisa era evidente. Ao contrário de outros ocupantes da Terra, ele tinha de ser ajudado. Não conhecia seu lugar, tinha de encontrá-lo Às vezes era arrogante e tinha de aprender a humildade, às vezes era covarde e era preciso que lhe ensinassem a valentia. Algumas vezes ele não entendia sua mãe Terra e sofria por isso. Os antigos que passavam fome e tinham visões no alto da montanha sabiam essas coisas. Agora todos tinham partido, e com eles partira a mágica. O órfão estava sozinho; tinha de aprender por si mesmo; era uma escola dura.”
Meu pai desgrenhou-me os cabelos, tocou delicadamente meu coração. “Você vai aprender a tempo que há muito sofrimento aqui”, disse. “Os homens o farão sofrer, o tempo o fará sofrer, e você tem que aprender a suportar isso; não suportar sozinho, mas tomar-se melhor pela sabedoria que poderá adquirir se prestar atenção, ouvir e aprender. Não se esqueça da tartaruga, nem dos métodos dos homens. Eles são todos órfãos e caminham sem rumo; fazem coisas erradas. Procure enxergar melhor.”
“Sim, papai”, respondi, e acredito que foi assim que passei a estudar os homens, não os homens da história escrita, mas os ancestrais de antes, muito antes de qualquer escrita, antes do tempo tal como conhecemos, antes da forma humana como é conhecida hoje. Meu pai estava certo quando me disse que os homens eram órfãos, vivendo em eterna busca. Tinham pouca coisa, no tocante a instinto, para instruí-los; tinha percorrido uma longa e estranha estrada no Universo; e tinham atravessado mais de uma ponte negra, ameaçadora. Havia ainda outros caminhos a transpor, e cada qual se tornava mais perigoso à medida que se ampliava o nosso conhecimento. Por ser verdadeiramente um órfão e não estar restrito a uma única maneira de viver, o homem era, em essência, um destruidor de prisões. Mas, na ignorância, seu próprio conhecimento o levava às vezes de uma terrível prisão para outra. O problema final seria, pois, libertar-se, ou seria harmonizar seu intelecto devastador e seu coração? Todos conhecimento registrado em grandes livros diz respeito direta ou indiretamente a esse problema. Ele é o problema de todo homem, pois, até o homem indiferente faz, sem saber, seu próprio julgamento insensível.
Muito tempo atrás, contudo, em um dos Manuscritos do mar Morto escondidos no deserto judaico, um escriba desconhecido escrevera: “Não existe nenhum homem capaz de contar a história inteira.” Essa frase contém também a advertência de que o homem é um órfão de origens incertas e final indefinido. Tudo que as ciências arqueológicas e antropológicas podem fazer é pôr diante do homem um cristal um tanto defeituoso e dizer: foi assim que você surgiu, estes são os perigos que o ameaçam agora; em algum lugar, vagamente vislumbrado a distância, está seu destino. Que Deus o ajude, você é um órfão cósmico, um mágico que faz malabarismos com símbolos, na maioria das vezes imaturo e desatento aos perigos que corre.
Leia, pense, estude, mas não espere que isso o salve sem humildade no coração. Disto os antigos já sabiam há muito tempo, vagando sob as estrelas pelos grandes desertos. Isso eles procuraram saber e transmitir. Esta é a única esperança ao homem.
O que foi que nós observamos que poderia estar enterrado, como estiveram enterrados os Manuscritos do mar Morto durante 2 mil anos, e surgiu dentro de um cântaro para benefício do homem, breves palavras que poderiam ser contidas num rolo de cobre ou numa folha rota de pergaminho? Esses são, a meu ver, os únicos pensamentos que poderíamos sensatamente estabelecer como verdade, hoje e no futuro. Por um longo tempo, durante muitos, muitos séculos, o homem ocidental acreditou no que poderíamos chamar de o mundo existente – da Natureza, como forma, era vista como uma constante sob o disfarce tanto animal quanto humano. Ele acreditava na crianção instantânea do seu mundo por Deus, acreditava que a duração saria muito curta, correspondente a uma estampa em que se desenrola o breve drama da queda do homem de um estado divino e de uma redenção.
O termo terreno era um pequeno parêntese na eternidade. O homem vivia com essa crença, seu pequeno Cosmos e centrado no homem. Então, a partir de cerca de 350 anos atrás, pensamentos não ousados desde o tempo dos filósofos gregos começaram a penetrar na consciência humana. Eles podem ser sintetizados pela frase de Francis Bacon: “Este é o fundamento de tudo. Não no cabe imaginar ou sopor, mas descobrir o que a Natureza faz ou pode ser levada a fazer”.
Nos anos seguintes, quando a experimentação e a observação científica se tornaram correntes, uma grande mudança começou a atravessar o pensamento ocidental. A concepção que o homem tinha de si mesmo, e de seu mundo começou a se alterar de maneira irreversível. “Tudo está em pedaços, foi-se toda a coerência”, exclamou o poeta John Donne, contemporâneo de Bacon. O mundo existente estava desmoronando nas bordas. Estava se partindo como uma balsa mal pregada numa torrente – uma torrente de ritmo incrível. Era, de fato, uma nova natureza, compreendendo um passo incrustado no presente e um futuro ainda por vir.
Primeiro, Bacon, discerniu um mundus alter, um outro mundo diferente, que podia ser extraído da Natureza pela intervenção do homem – o mundo que nos cerca e nos perturba hoje. Depois, gradualmente, profundezas de tempo de imensa magnitude começaram a substituir, no final do século XVIII, o calendário cristão. O espaço, de um candelabro de estrelas que nos envolviam, começou a se largar até o infinito. A Terra foi reconhecida como um simples pontinho arrastado em torno de uma estrela pequena, ela própria girando em torno de uma imensa galáxia composta de inúmeros sóis. Mais e mais além, a bilhões de anos-luz, outras galáxias brilhavam através de nuvens errantes de gás e poeira interestelar. Finalmente, e talvez o mais violento de todos os golpes, o mundo natural deste momento provou-se uma ilusão, uma fantasia do breve tempo de vida do homem. Novidades orgânicas revelaram-se nos estratos da Terra. O homem não tinha vindo sempre aqui. Ele fora precedido, nos 4 bilhões de anos da história do planeta, por moluscos flutuantes, estranhas florestas de samambaias, imensos dinossauros, lagartos voadores, mamíferos gigantes cujo ossos jazem sobre as pedras caídas de placas de gelo continentais desaparecidas.
O órfão gritou em protesto, quando o frio do espaço nu lhe penetrou os ossos: “Quem sou eu?”. E mais uma vez a ciência respondeu: “Você é uma criança trocada. Está ligado, por uma cadeia genética, a todos os vertebrados. A questão é que você carrega no corpo e no cérebro as feridas ainda mais doloridas da evolução. Suas mãos são nadadeiras reformadas, seus pulmões vêm de uma criança que arfava num pântano, seu fêmur foi aprumado à força. Seu pé é uma pata trepadora remodelada. Você é uma boneca de trapo recosturada com as peles dos animais extintos. Muitos anos atrás, 2 milhões de anos talvez, você era menor, seu cérebro não era tão grande. Não temos certeza de que era capaz de falar. Setenta milhões de anos antes disso, era uma criança trepadora ainda menor, conhecida como tupaiideo. Tinha o tamanho de um rato. Comia insetos. Agora voa até a Lua”.
“Isso é um conto de fadas”, protestou o órfão. “Eu estou aqui, vou olhar no espelho”.
“É claro que é um conto de fadas”, disseram os cientistas, “mas o mundo e a vida também são. É isso que nos torna verdadeiros. Viver é partir a qualquer momento. É por isso que somos todos órfãos. É por isso que você tem que encontrar seu próprio caminho. A vida não é estável. Tudo que vivem está tropeçando por entre fissuras e fendas no tempo, mudando à medida que ele passa. Outras criaturas, no entanto, têm instintos que lhe proveem a subsistência, buracos onde se esconder. Não podem fazer perguntas. Uma raposa é uma raposa, um lobo é um lobo, mesmo que isso, também, seja uma ilusão. Você aprendeu a fazer perguntas. É por isso que é um órfão. Você é a única criatura no Universo que sabe o que o Universo foi. Agora você tem que continuar a fazer perguntas enquanto está mudando o tempo todo. Vai perguntar em que se transformará. O mundo já não o contentará. Você tem de encontrar seu caminho, seu próprio eu verdadeiro.”
“Mas como eu posso?”, chorou o órfã, escondendo a cabeça. “Isso é magia. Não sei o que sou. Já fui coisa demais.”
“De fato foi”, disseram em uníssono todos os cientistas. “Seu corpo e seus nervos foram arrastados por todo lado e retorcidos no longo esforço de seus ancestrais para permanecerem vivos, mas agora, órfãozinho que é, você tem de conhecer um segredo, uma mágica secreta que a Natureza lhe deu. Nenhuma outra criatura no planeta a possui. Você usa a linguagem. Você é um malabarista de símbolos. Tudo isso está escondido em seu cérebro e é transmitido de uma geração a outra. Você freia o tempo, em sua cabeça os símbolos que significam coisas no mundo exterior podem voar desimpedidos. Você pode combiná-los diferentemente num novo mundo de pensamento ou segurá-los obstinadamente durante toda uma vida e transmiti-los a outros.”
De fato é assim, de palavras, de uma lufada de ar, que é feito tudo que é unicamente humano, tudo que é novo de uma geração para outra. Mas lembre-se do que foi dito sobre as feridas da evolução. O cérebro é muito antigo, pelo menos parte dele, pois as partes foram depositadas em sequência, como estratos geológicos. Profundamente enterrados debaixo do cérebro co que raciocinamos, há antigos centros de defesa prontos para a raiva. Prontos para a agressão, prontos para a violência, sobre os quais o neocórtex, o cérebro novo, tenta exercer controle. Assim, há momentos em que o órfão é um ser dividido em luta contra si mesmo. Os homens perversos sabem disso. Às vezes conseguem explorar isso em seu próprio proveito político. Homens reunidos em multidões, sujeitos aos mesmos estímulos, reagem rapidamente a uma emoção que, na tranquilidade de suas casas, poderiam analisar com mais cuidado.
Os cientistas descobriram que os próprios símbolos que povoam nosso cérebro podem contem perigos. Convém ao pensador classificar uma ideia com uma palavra. Às vezes isso pode levar a um processo chamado hipostático, ou de reificação. Tome a palavra “Homem”, por exemplo. Há ocasiões em que é usada para categorizar brevemente a criatura, suas histórias, suas características abrangentes. A partir disso, se não prestarmos atenção ao que queremos dizer, torna-se fácil falar de todos os homens como se fossem uma só pessoa. Na realidade, os homens vêm buscando esses homem irreal há milhares de anos. Encontraram-no banhado de sangue, encontraram-no na cela do eremita, ou em meditação sob o pipal, a árvore sagrada; encontraram-no no gabinete do médico ou iluminado pelas chamas satânicas da primeira explosão atômica.
Na realidade ele nunca foi encontrado. A razão é muito simples: os homens andaram buscando o homem com letra maiúscula, uma criatura imaginária a partir de fragmentos díspares no laboratório da imaginação humana. Assim, alguns homens podem percebê-lo e vê-lo como totalmente bondoso ou inteiramente perverso. Estaríamos errados. Permanecem errados enquanto dão vida a essa criação e chamam de “Homem”. Não existe Homem algum; existem apenas homens: bons, maus, misturas inconcebíveis, estragadas por sua constituição genética ou aperfeiçoada por seu meio social. Contanto que vivam, são homens, potencial abundante e não exaurido de ação. Os homens são excelentes objetos de estudo, mas a partir do momento em que dizemos “Homem” corremos o perigo de nos perder num pântano de abstração.
Se examinarmos nossa história fóssil, talvez não tenhamos sequer o direito de chamar a nós mesmos de verdadeiros homens. A palavra carrega implicações sutis que se ampliam além de nós na corrente do tempo. Se um remoto ancestral semi-humano, mas capaz de falar, tivesse tido um nome para sua espécie, como muito provavelmente tinha, e apenas suponho que esse nome fosse “homem”, iríamos nós agora aprovar seu uso, seu atributo imobilizante? Penso que não. Talvez nenhum verdadeiro órfão deseje ser chamado de outra coisa senão de viajante. O homem no sentido cósmico atemporal pode não estar aqui.
O problema fica particularmente claro à luz de uma descoberta recente e estarrecedora. Em 1953, James D. Watson e Francis H. C. Crick descobriram a estrutura do alfabeto químico que constitui tudo aquilo que vive. Era uma estranha escada em espiral no interior da célula, muito mais organizada e complexa do que haviam imaginado os biólogos do século XIX; os minúsculos tijolos, constantemente reembaralhados a cada acasalamento, tinham ao mesmo tempo uma estabilidade espantosa e, paradoxalmente, no curso de longos períodos de tempo, o poder de alterar de maneira irreversível a estrutura viva de uma espécie. A coisa chamada homem fora outrora um arbusto num trecho de floresta; agora manipula em seu cérebro símbolos abstratos a partir dos quais nascem arranha-céus, pontes cortam o horizonte, a doença é dominada, a Lua é visitada.
Os biólogos moleculares passaram a indagar se o maravilhoso alfabeto vivo que jaz na raiz da evolução pode ser manipulado em benefício do homem. Algumas variedades de plantas e animais domésticos já foram aperfeiçoadas. Agora finalmente o homem começou a divisar seu possível caminho para o futuro. Seria possível, por meio de delicadas excisões e instruções, fazer o misterioso alfabeto que carregamos em nossos corpos acelerar nosso avanço rumo ao futuro? Nossa concentrações urbanas, com todas as aberrações e defeitos, já são orientadas para o futuro. Por que não nós mesmos? Estará em nosso poder perpetuar mentes excepcionais ad infinitum? A quem caberá a seleção desse homem do futuro? Aí está o problema. Qual de nós pobres órfãos à beira da estrada, mesmo entre aqueles que perscrutam sabiamente através do microscópio eletrônico, pode estar seguro quando o caminho para o futuro? Sem a ajuda da Natureza, poderia o peixe ter encontrado o caminho para o réptil, o réptil para o mamífero, o mamífero para o homem? E como o homem foi dotado da palavra? Poderiam os homem escolher seu caminho? De repente eleva-se diante de nós a mais negra, a mais aterradora ponte da nossa existência. Que abismos ela transpõe.
Os biólogos nos dizem que, ao longo de todo o tempo, mais de 90% das espécies viveram no mundo pereceram. As espécies mamíferas, em particular, não se distinguem pela longevidade. Se o bisturi e o raio laser que amputam nos laboratórios fossem postos na mão de uma pessoa qualquer, um pobre órfão qualquer, que faria esta pessoa? Se confiante, iria reproduzir apenas a si mesma? Se cruel, iria por meios indiretos conseguir destruir o mundo vivo? Se incerta quanto ao caminho, iria reproduzir a dúvida? “Nada é mais vergonhoso que uma afirmação sem conhecimento”, pronunciou certa vez Cícero, o grande estadista e orador romano, como se tivesse antevisto esta ponte do orgulho humano – o orgulho de um deus incapaz de antever.
Após os desastres da Segunda Guerra Mundial, quando o sonho do progresso eterno morreu na mente do homem, um órfão deste século escreveu um poema sobre as grandes extinções reveladas nas pedras do planeta. Ele conclui assim:
Não sei ao certo se amo
as crueldades encontradas em nosso sangue
de alguma árvore do mal perdida em nosso inícios.
Possam os deuses perdoar e nos lacrar profundamente quando tombamos,
Possa o inofensivo arganaz insinuar-se nas prisões
onde dermos livre curso à nossa vontade
e folhas vermelhas tombar sobre elas.
Dachau, Auschwitz, esses lugares por toda parte.
Pudesse eu rezar, rezaria por muito por isso.
Pode-se concluir que o poeta era um homem da dúvida. Não chorou pelo homem; confiava em que folhas , coelhos e aves canoras continuariam a viver, assim como, muito tempo antes, uma víbora arbórea esquecera alegremente os répteis dominantes. O poeta era um órfão em circunstâncias vergonhosas, fazendo uma pausa à beira da estrada para rezar, porque ele rezou, embora o negue; que Deus perdoe a todos nós. Era um homem em dúvida quanto ao caminho. Era o eterno órfão da história de meu pai. Que nos disponhamos então, como órfãos similares que percorremos este longo caminho através do tempo, a assumir os riscos da viagem inacabada. Devemos saber, como sabia aquele infeliz bando de homens na Judéia, ao enterrar o cântaro, que a estrada do homem deve ser buscada acima dele. Não existe nenhum homem capaz de contar a história inteira. Após o breve lapso de 2 mil anos, quem negaria esta verdade?
Loren Eiseley (1907-1977), antropólogo, foi uma espécie de estranho no ninho da comunidade científica. Escrevia poesia e, sobretudo, dominava um eloquente estilo de prosa poética, bastante incomum entre os profissionais de sua área. Dois de seus livros mais impressionantes são The Immense Journey (1957) (A imensa viagem) e sua autobiografia, All the Strange Hours (1975) (Todas as horas estranhas). O presente ensaio que se segue, intitulado “The cosmic orphan” (O órfão cósmico), aparece na 15 edição da Enciclopédia Britânica, como Introdução da parte quatro: “Human Life” (Vida Humana).