"Escreva para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. E isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar o dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Escrever - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Então vai, escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel. Isso é escrever. Tirar sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto - exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te." Caio Fernando de Abreu.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mogwai

Nunca fui muito boa com datas comemorativas.

Véspera de natal, alguns anos atrás.
Tinha trabalhado horrores durante o dia e estava cansada.  Não tinha muito o que fazer, o programa do feriado seria livro, café e algum som. Em última hora um amigo me chama para ir à sua casa que mais um estava indo também. Afinal, nada melhor que três perdidos juntos.

Conversas, cigarros e algumas garrafas de vinho tinto seco misturado com cachaça de alambique... o que chamávamos de Lorem Ipsum Dolor.

E entre conversas sacanas vem no play o som de Mogwai, até então desconhecido para mim.
A expansão de si mesmo dentro das camadas de som e a sensação nítida do universo estendendo-se pelo toque e pela vibração entre os corpos e as fodeções.
Gosto da memória não linear. Tira-se muito mais do caos.
Três corpos, dois pintos, uma boceta, três cus, três bocas, infinitos dedos, um som.




quinta-feira, 23 de maio de 2013

Perverções II - Fazer a feira


-Tarefa do dia: quero que vá "fazer a feira".
- No domingo?
- É, no domingo!

Ele me olha desconfiado, a mais de um mês começamos o treinamento anal com vegetais. Passo a lista e peço que me ligue quando chegar.

Meia hora.

- Pronto, Sra.
- Quero que compre o pepino japonês primeiro. Vá em três barracas diferentes em que eles estejam bonitos, separe os melhores, coloque em fileira, tire a foto e me envie.
- Como?
Paciência.
- Vá em três barracas diferentes em que os pepinos estejam bonitos, separe os melhores, coloque em fileira, tire a foto e me envie.. Alguma dúvida?
- Para que a foto Sra?
- Preciso ver quais vou querer usar em seu cu.
Posso ouvir o gaguejar do outro lado.
- Alguma dúvida?
- Não Sra.
- Ótimo.
- Mas as pessoas vão me olhar estranho.
- Só porque vai tirar fotos de pepinos, estranho vai ser quanto tu ver eles inteiros enfiados.
- A última vez: dúvidas?
- Não, Sra.

Demora mais vem...
Barraca 1
Barraca 2
Barraca 3

- Está em qual barraca?
- Terceira.
- Ótimo.
- Apalpe os pepinos pra mim e descreva a consistência?
- Duro... acho.
- Pergunte pro feirante se estão maduros?
- Como?
- Coloca no viva-voz.


- Oi, bom dia Sr. Pode me informar se esses pepinos estão verdes ou se estão com as pontas murchas?
- Oh, não não... Estão ótimos. Muito bons.
- Não é para comer Sr.

Imaginei o feirante japonês velhinho e de cabeça branca a matutar.