"Escreva para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. E isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar o dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Escrever - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Então vai, escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel. Isso é escrever. Tirar sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto - exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te." Caio Fernando de Abreu.

sábado, 24 de setembro de 2011

O sonho

Sonhos, o mergulho íntimo na sobra. Quase nunca recordo dos meus, a não ser quando os tenho em estado semiacordada. Sei que estou dormindo, tenho consciência dentro do sonho.. como se conectasse meu subconsciente.

Não lembro de tudo, sonhos não são lineares, nem tem sentido imediato. Uma tentativa de descrever, e tentar compreender.
Não sabia onde estava, nem como havia chegado lá. O lugar, a floresta densa, obscura, fui arrastada por mãos, que não sabia de quem, para dentro de uma choupana, ou algo assim.
Em pé, fui amarrada em alguma coisa, de modo que meu corpo ficasse meio suspenso pelas mãos. Sentia presenças, não sabia se aquilo eram homens.. aquelas criaturas tinham forma humana, mas não tinham rosto nem olhos, e sua maldade era latende. Eu estava abandonada, exposta para aquelas coisas, o medo consumia.
O Professor estava entre eles, seus olhos negros me fuzilavam, e eu queimava dentro deles. Seus lábios proferiam coisas, mas eu não tinha ouvidos, não conseguia compreender sequer uma palavra.
Fui chicoteada, as primeiras nem agrediram a carne, não sentia ardor, dor, o corpo estava anestesiado. As criaturas sem olhos, fecharam o circulo ao nosso redor, as chicoteadas se intensificaram, não era apenas uma mão a me castigar, as varias mãos das coisas sem rosto acompanhavam a mão de meu Professor. Só assim, a dor se fez sentir. Como numa sequencia harmônia, sentia o estalado do couro na pele, a dor, abrindo as portas para viajem interior. Me vi, como nas experiências passadas, mergulhar no medo e prazer. O medo em perder o controle. A dor, que conduz minha mente a outros mundos, aquela que sozinha não consigo alcançar. O sangue quente escorrendo de mim, o cheiro dele impregnando o lugar. Gosto dos extremos, estou a oscilar pelos meus, o abismo sempre me foi interessante, um vício. Não tinha mais controle sobre o corpo, pensamentos, era tudo simples: apenas sentir.
Quando fui desamarrada, o corpo em frangalhos se despedaçou no chão. Meu Professor me levantou, e conduziu-me até a porta. Forçando minha visão para a noite, para a floresta. E pela primeira vez sua voz se fez ouvir:


Corra, lobos sentem o cheiro de medo!

E sem saber o porque, sai na noite, ao encontro das árvores. A cada passo, tudo se tornava mais sombrio. A floresta me afogava, ficava mais densa, e eu perdida, fugindo não sei de que. Medo e fobia.
A certa altura do percurso, outros seres se juntavam ao meu passo, eles também corriam, mais aflitos que eu. Pareciam saber porque fugir. Medo se intensificou, instintivamente, me juntei ao pânico coletivo.
Cheguei a uma clareira, havia umas amarrações feitas em bambu. As pessoas sem rosto, aqueles que corriam comigo diziam aos berros.


Prendam-se aqui, não há mais como fugir!

Fique perdida, não sabia o que fazer. Alguns mais desesperados que eu, se adiantaram e subiram nos lugares mais altos. Para mim sobrou um, muito desajeitado, que além de ser próximo ao chão, não protegia meu corpo de forma alguma. E eu assim deitei: de barriga para baixo, a cabeça... quase o troco todo a mostra, as pernas soltas sem proteção, com as mãos esticadas segurando os bambus finos, que de tão frágeis parecia que iam arrebentar a qualquer instante.
Depois silêncio, meu olhos procuravam na floresta, o que me fazia sentir aquilo. Foi quando percebi que não consegui ver nada, tudo era escuridão e silêncio. Eu também não tinha mais olhos.
Segundos depois, pude sentir a presença de algo grande, arfando imponente. Era o lobo. A criatura se aproximava, não consegui ver com os olhos, mas, de alguma forma, eu via através dos sentidos.
O lobo se aproximou, eu sentia a respiração da criatura diretamente em meu rosto. Lembrei das palavras: - Lobos sentem cheiro do medo.
A criatura abocanhou meu ombro direito, o cheiro de sangue, o calor, a dor. A coisa rosnou, fungou, balançou a cabeça, dilacerando minha carne. Tentando extrair de mim o grito, tentando sorver meu medo.
Não havia medo. Eu sentia prazer. Fiquei calada, rendida. Não me importava em ser consumida, a sensação era confortável, como se a vida se completasse assim. Não me importava se tudo terminasse ali, na verdade, agora acordada, com os pensamentos convulsos, vejo que ser devorada não era o fim, era o início de mim mesma. Se eu fosse devorada pelo lobo, eu seria parte dele. Minha carne seria sua carne, eu seria o lobo também. Forte, brutal, imponente!
O lobo, me soltou, satisfeito por eu não me render por tão pouco. A criatura deu meia volta e se foi.  


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