"Escreva para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. E isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar o dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Escrever - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Então vai, escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel. Isso é escrever. Tirar sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto - exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te." Caio Fernando de Abreu.

domingo, 13 de novembro de 2011

Ulisses

Toca-me . Olhos doces. Mão doce. Estou aqui. Oh toca-me logo, agora.
Qual é essa palavra sabida de todos os homens?
Estou mesmo aqui sozinha. Triste também. Toca, toca-me.

Joyce, James.  Ulisses

sábado, 12 de novembro de 2011

Sugar e ser sugado pelo amor

 Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante  boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pelo
que não pertence a mim nem te pertece
um gozo de fusão difusa transfusão
o chupar e ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Relatório masturbatório

Retornar ao texto Marcas de sangue, ancia em lê-lo, apenas mais uma vez...
Fechei os olhos, sorri desejosa por estar na oficina de tortura e ser aquele manequim imóvel, indefeso.
O compasso do estroboscópio em sintonia com as chibatadas. Uma pequena audição musical regulada pelo “metrônomo luz”, o som entrelaçado e harmonioso do estalado do couro na pele, os gemidos e suspiros deliciosos. Imagens congeladas, a beleza da cena. A pele macerando a cada beijo dos fios, saudade torturante da dor no corpo e alma,  a pele queimando como fogo, desespero por não poder auto infligir esses prazeres em minha carne com tanta primazia, com tanto prazer. A dor sem humilhação, sem controle, de nada servem aos meus sentidos.
Sai do mundo dos sonhos. Mexi as pernas na cadeira, e ao fazê-lo senti o molhado entre as pernas.
Ideias vem a mente, busca ansiosa por aparatos:  plug,  pênis e alguns prendedores, cinto de
couro mais pesado, outro mais longo com a espessura de um dedo.
Espelho, a imagem da necessidade refletida...os cabelos ligeiramente bagunçados, os olhos pesados
pela hora da madrugada...
Olhar sobre o corpo não perfeito, pernas longas e grossas demais, a barriga saliente que ainda resiste em permanecer aqui, o busto grande, os ombros largos. Ainda assim, imperfeita, gosto no que se vê.
Despir as roupas, observar a pele branca sem marcas, lembrar dos vergões desenhando a pele em roxo avermelhado.
De joelhos diante do espelho, toquei o peito,  apliquei pequenos castigos. Torções, respiração acelera, ainda não o suficiente, os olhos ainda não lacrimejaram de dor..  mais... o corpo treme, e assim aparecem as sensações já conhecidas, a imagem no espelho saem de foco. 
De costas para a imagem refletida, de quatro, queria ver as entradas, uma nem ainda usada como deveria. 
O corpo apoiado em um dos braços,  uma das mãos a passear pelos orifícios, olhos curiosos por sobre o ombro, é diferente e exitante vislumbrar-se assim. Lembrei de Anais Nin em suas experimentações literárias. 
Os dedos escorregando por entre as pernas,  um deles introduzi, e o deixei passear vagarosamente pelo espaço ainda não explorado. Alcancei o plug, o enfiei na boca, chupei.. força-lo sem cerimônias. Sento o corpo sobre as pernas, o troco ereto, o cinto de couro mais grosso, as lambadas começam, sequencias. Desferir os golpes sobre a carne. Mais uma sequência, a respiração acelera, os gemidos sutis surgem, a carne queima quando toca a pele sensível. Mais uma sequência, o corpo a tremer,sentir o plug a cada vibração, a parte interna das coxas deslizam. Pênis, enfiei ainda com o vibra desligado.Olhei por sobre o ombro o corpo no espelho, os vergões vermelhos bem marcados a desenhar a carne.
Brincadeiras, olhar sair e penetrar novamente, tirei totalmente o pênis e vi o fio transparente a esticar, voltei a enfiá-lo, e deixei parado. Precisava das mãos livre. Peguei o outro cinto de couro, o mais fino. Enrolei uma das pontas um pouco na mão, de forma que ficasse um pouco mais curto. Voltei a posição, corpo ereto, desferi lambadas nas pernas, na pele sensível das coxas. A cada toque, a pele queimava como brasa, gemia e ria ao mesmo tempo. O corpo começa tremer, sem forças, rebolei em torno do pau artificial, que teimava em escorregar, em sair de mim,e sim,  desejei um de fato, e desejei a dor que consome, até agora havia sido insuficiente. Com o movimento do corpo os prendedores dos peitos voaram longe, não tive paciência pra ir buscá-los..Liguei o vibra, soltei um pouco mais do cinto, e voltei a lambadas nas costas. Não suportaria segurar o gozo por muito tempo. Bati o cinto com prazer, queria tudo. Não sei em qual das contas o braço não conseguia se levantar mais, não tinha forças. O corpo prostrado de quatro vibrava, minha cara no chão, a respiração e gemidos se entrelaçavam, senti o gozo,  torci um dos bicos com tanta força que pensei que o arrancaria fora, e assim 'la petite mort' me acolheu mais uma vez. Contrai o corpo, e deixei-me assim, tremendo e gemendo até não suportar mais, totalmente compulsiva e viciada. 

 La Vênus del Espejos - Por Diego Velázquez

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Poema de amor sobre um tema de Whitman

Entrarei em silêncio no quarto de dormir e me deitarei entre noivo e noiva,
esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto, braços pousado sobre os olhos da escuridão, afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei a sua pele
e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e abrirei e mostrarei seu traseiro,
pernas erguidas e dobradas para receber, caralho atormentado na escuridão, atacando
levantado do buraco até a cabeça pulsante,
corpos entrelaçados nus e trêmulos, coxas quentes e nádegas enfiadas uma nas outras
e os olhos, olhos cintilantes encantadores, abrindo-se em olhares e abandono,
e os gemidos do movimento, vozes, mãos no ar, mãos entre as coxas,
mãos na umidade de macios quadris, palpitante contração de ventres
até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençóis
e a noiva grite pedindo perdão e o noivo se cubra de lágrimas de paixão e compaixão
e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos e beijos de adeus
tudo isso antes que a mente desperte, atrás das cortinas e portas fechadas da casa escurecida
cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite,
fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.

Ginsberg, Allen. Uivo, Kaddish e outros poemas, Porto Alegre.  Ed.L&M Pocket. 2005. p.133



domingo, 6 de novembro de 2011

A Palavra Libertina.

Vejamos o velho Antonio de Moraes Silva, tão distante dos aurélios insípidos de competência:

Libertinágem, s.f. (do Fr. libertinage) O vício de ser libertino, de ser mal morigerado; desregramento dos costumes; impudicícia, devassidão, incredulidade na religião; prática de atos contrários aos seus princípios;



Libertino, O filho do liberto; daquele, que sendo cativo se forrará. O liberto. Que é licencioso, dissoluto na vida, mal procedido. Que é incrédulo na religião, e ofende as suas práticas; que é imoral em costumes, dissoluto, devasso, depravado.

O libertino, vejam que maravilha, não é morigerado, aquele que tem bons costumes, o que inspira bons costumes e doutrina a moral, o obediente, o pio. O libertino escreve e lê a libertinagem: ele desdobra a libertinagem, o não querido por “fora dos panos” mas o desejado por “dentro dos panos”. O libertino pode se dar o direito [ele mata também sem se dar ao direito, longe dos direitos] de matar o outro para o seu prazer e esse direito não emana de uma permissão, de uma concessão, de um respeito a uma ordem constituída: o libertino constitui sua ordem e essa ordem se esgota na expectativa, no prazer e no gozo: sua vida é se libertar libertando o outro dos seus limites [os cordeiros têm horror-pânico ao liberto-lobo que lhe devora o bolo].

O libertino afasta, dilui, destrói os limites. Faz fluir os limites: o limite não é o texto, não é o corpo masculino, feminino (todos dois são performances de papéis sociais travestidos de gênero natural ou cultural) ou homossexual (outra performance): o limite para o corpo não é nenhuma das novidades velhas: Formicofilia, amalgatofilia, anastemafilia, autopederastia, ecouterismo, frottage, higrofilia, misofilia, acrotomofilia, zoofilia, dendrofilia, enema, tafefilia, necrofilia: também performances de discursos e de possibilidades de corpo, de desejo, de deslimite, de desrespeito: o limite é a melancia e o além da melancia; o tronco da bananeira, a banana, a cenoura e o além dos vegetais, além da brecha e do pontudo das pedras.

Restam todos os limites sonhados no desejo: e o texto é bem mais que um corpo: ou melhor, o texto é um corpo de papel e tinta ou bits ou qualquer coisa que possa multiplicá-lo: é um corpo de desejo negativo. Para o libertino a grafia (texto e pré-texto) é porno-grafia. [Nada mais querido e desejado que a pornografia e a obscenidade e nada mais negado e escondido [a sedução do lobo: ver e viver e desejar aquilo que vê, deseja e vive o lobo]: há sempre muitas coisas sobre o pornográfico: ele é algo esmagado sobre outras coisas: escondido. Dos textos do mundo nenhum é mais pornográfico que aqueles da literatura: transgressão viva dentro da linguagem que se põe a gozar, para nada, por safadeza, por pura maldade, por perversa-idade [“Quem ri quando goza/É poesia/Até quando é prosa” (Há lice? Who is)]: há uma ofensa maior que escrever? Kafka assim feria o pai.]

A porno-grafia é uma linguagem trans-a-gressiva: é um constante levar ao limite, um intermitente afastar os limites, é um des-velar, mas o ve-lar do des-velar se faz no limite e no se afastar do limite e não num simples en-cobrir. O ve-lado do porno-grafico é o mais des-velado dos en-cobertos: é o des-velado que não cessa de se des-velar e des-ve-lar seu próprio velamento: e seu prazer, e seu gozo ad-vém deste des-cobrir.

O libertino é obsessivo e obsceno. Até mesmo a normalidade é para ele uma trans(a)gressão. Sem a trans(a)gressão não há libertinagem, não há leitura, não há interpret-ação. Sem a pele, sem o buraco da fechadura, sem o esgar de prazer, sem a palavra rasgada em sua normalidade, não há o libertino. O libertino é aquele que vive com a con-tr-adição, com o i-lógico, o para-doxal, o des-medido: seu fluxo é criar textos para nada, para o gozo, para des-dizer, para contra-dizer: o seu é um dis-ser.

A Literatura está sempre longe da libertinagem. Como palavra da ordem, é palavra disciplinada. A literatura é pura libertinagem. O escritor escreve a Literatura enquanto o libertino deixa passar a literatura, simplesmente para seu gozo e de quem quiser ouvir.

O Madeirismo é uma libertinagem.

Alberto Lins Caldas


sábado, 5 de novembro de 2011

A Vênus das Peles e o Masoquismo

A leitura dos “clássicos” como Masoch e Sade vieram tarde, mas de certa forma, a maturidade de hoje propicia boa qualidade na leitura, culminando num leque mais amplo de divagações. Escrever é um vomitar da mente, é expurgar pensamentos, tenho essa necessidade latente a anos.
Pensar sobre masoquismo, requer leitura e experimentações, li em Freud, mas creio que Masoch é a ponta, o feeling em tudo isso. Livros são repositórios do pensar, links que podem expandir e conectar a mente em outras frequências. Claro, sou uma viciada!
Um pensar que gosto muito, a visão de Sartre a respeito da leitura: o texto só adquire sentido estético quando o leitor, pela sua consciência imaginante, cria significado para as frases. Por polir o texto com sua imaginação criadora, o leitor pode expandir-se em criador, atuando como reagente literário. O artista se confunde com a obra, é o olhar imaginante do leitor que se responsabiliza pela criação.
Fazendo uso de minha liberdade e imaginação criadora. Pensando um pouco sobre masoquismo, e suas origens e bases. Vamos ao primeiro: A Vênus das Peles de Sacher Masoch.

A Vênus e Severin.
Severin é desejo, e vive suas aspirações num perspectiva idealizada. De forma poética, ele almeja a Vênus das Peles, e encontra em Wanda o esteriótipo para exteriorização de si mesmo. Gregor, carrega a carga emocional de seu tempo, a idolatria e a busca pelo inalcançável. Pura influência de Goethe, na literatura de Masoch. E creio que, sejam esses os fatores base, para o jogo de manipulação, e a busca incontrolável em fazer Wanda, se adequar aos moldes que ele tanto necessita.
Gregor é parecido com Werther, a idolatria, o sofrimento, a frustração e a fuga. No caso de Severin, o desejo é tão idealizado, que na perceptiva de alcançá-lo, frustra-se com facilidade, tangenciando o caminho. Penso eu que, Gregor sente mais prazer na manipulação de Wanda, do que no próprio prazer do sofrimento. Os dois nesse caso, caminham juntos, e quando ele perde uma das pontas, se sente perdido na busca, no prazer e no próprio desejar.
Vejo Masoch, como a ponta do pensar em tudo isso. O sofrimento e prazer, se encontram sim, em Severin. E é impossível comparar a leitura de seu tempo com nossos olhos. Como se pautar no “masoquismo” de Severin para trabalhar com o “esteriótipo de masoquista” que temos hoje?

Li as palavras de Aurorah, a elfa de meu Professor, que tinham o seguinte dizer: “Severin um idealizador, que nunca está satisfeito e se entrega mais a uma ilusão e fantasia do que a realização com as coisas que de fato acontecem” E creio mesmo que esse seja o ponto, Severin vive fantasia, portanto a idealização é tamanha que se torna inalcançável. Quando se aproxima da realização, do desejo inicial, se frustra, vivendo um eterno desconforto, uma eterna busca pelo inalcançável.
Outra questão muito pertinente e interessante, que surgiu nesse mesmo comentário:
“Fico pensando que existe uma verdade nisso nos que se dizem masoquistas atualmente, a vontade de cada vez ir mais longe, aguentar mais, chegar a outros patamares e fantasias mais complexas”.
Sinceramente, creio que essa seja uma “característica do masoquista”, uma necessidade!

Para trabalhar o masoquismo sem fugir da perspectiva de Masoch, preciso abrir dois parênteses, vejo muita diferença na submissão e no masoquismo. A submissão é entrega plena, aceita-se como é, e abdica-se de si mesmo em detrimento do outro, e sentir prazer nisso, creio que essa, é a ideia base. Quanto ao masoquismo, a entrega acontece em primeira instância a si mesmo, para depois se completar na entrega ao outro.

A necessidade de ir além:
Se pensarmos, a dor faz parte do indivíduo, faz parte de seu processo de crescimento sensível e de adaptação ao mundo físico e social. O ponto em questão é, o que que faz um ser, sentir necessidade, desejo na dor, seja ela emocional ou física. Já que a grande maioria não tem facilidade para trabalhá-la.
Sempre pensei no masoquista como um dos extremos, desejar a dor é desafiar de si mesmo, é abrir as portas do sentir. Entregar-se a dor é um limite, um liminar, uma linha tênue para sentidos, para sensações.. é o uso extremo do corpo e mente. É uma batalha interna em saber o quando disso posso suportar, o quanto isso posso sentir, o quanto minha dor satisfaz o outro, o quanto isso me traz questionamentos, compreensões e divagações da mente. O quanto, e como posso converter e somar a dor em prazer, em gozo.
Não é a toa, que a dor, é um limite para muitos. Mesmo que essa característica faça parte de todos os seres.
O desconforto, a idealização e a eterna busca em Severin, ao meu ver se encaixa perfeitamente no masoquista hoje. O desconforto seja qual for, tira o sujeito de sua zona de conforto, e ao fazer isso, as percepções se ampliam. É a eterna busca, o desejo de sempre ir além.
O desejo move o ser, e o prazer o completa.