"Escreva para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. E isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar o dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Escrever - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Então vai, escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel. Isso é escrever. Tirar sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto - exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te." Caio Fernando de Abreu.

sábado, 30 de junho de 2012

Notas sobre sadismo e a arte de corromper — Parte I

Esse texro foi publicado originalmente em iFetiche.
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Entre idas e vindas, um ser me traz a seguinte posição e questionamento:

“ O que mais me atraí, é ver uma pessoa negar a razão e a moral, negar sua consciência de que faz algo cruel, condenável e prejudicial ao terceiro, e por prazer, passa por cima disso tudo e faz o mal. Posso perguntar se a ciência de algo que é mal, cruel, injusto e perverso a excita? Fazer o mal sem motivos, apenas por prazer a atraí?
Concorda que o verdadeiro mal é feito sem motivos, mas pelo prazer banal e sexual de ser cruel?”

Achei interessante a pergunta. Pensar sobre ela, levanta vários pontos de como nos vemos e como vemos às relações a nossa volta.

Existe certa complexidade dentro do sadismo social, todos em menor e maior grau usam disso no cotidiano. Tal comportamento não se enquadraria dentro do convívio social? Talvez, mas já paramos pra pensar que todos nós temos ao menos um pouco disso! Pessoas comuns veem o sadismo de forma negativa, e deixamos de perceber e compreender que isso é um tanto quanto natural, negamos portanto parte de nossa essência. Compactuo com as ideias de alguns etologistas quando dizem que, a violência, seja física ou psicológica, faz parte do homem como animal, portanto tais características não estariam presentes também no homem como ser social.

O que difere então, o sadismo social do sadismo com o qual alguns vivem no BDSM?
A partir de que ponto sadismo passa a ser uma psicopatia? Ou em que ponto o masoquismo se torna uma doença psicológica?
Vejo o BDSM como um meio de canalizar e desenvolver sensações e percepções sobre nossa personalidade, uma auto investigação do que de fato somos ou, por que não, do que desejamos ser. Existe uma linha tênue em tudo, e há certo risco trilharmos esse caminho em nós mesmos, mas porque não pagar o preço?!

Dentro do BDSM, tal característica pode tomar outros rumos, digamos, tornar a coisa com a aparência de “civilizada” — porque um é cruel e o outro deseja sofrer tais crueldades. Creio que a todo instante negamos o prazer numa crueldade feita, ou vista, sem motivo aparente. Até porque, como adultos normais, passamos por todo um processo de socialização. Fomos formatados para não compactuar e ver com bons olhos situações dentro desse contexto. Penso que talvez seja exatamente por esse fator que transformamos e declaramos o sadismo dentro de uma perspectiva mais trabalhada, pensada, mais bem elaborada dentro do sadomasoquismo. Sadismo social (a crueldade pela crueldade) nada mais é que pura violência gratuita. Sadeanos se encontram em outra linha de pensamento, trabalhamos o sadismo social e transformamos em algo bem maior, consequentemente, o prazer se torna maior do que uma simples e banal maldade.

Já ouvi e li absurdos dentro do BDSM sobre o que é ser sádico, sobre o que é sadismo e etc. Os típicos arrotadores sobre o assunto, utilizam frases recortadas de algum lugar e, sem se quer ler um livro do pai da luxúria, se agarram a pensamentos fragmentados pra justificar ideias tão torpes que fariam Sade se levantar do túmulo, claro, se ainda tivesse ossos, para mindfuckear a mente desses profanadores.
Ser sadeano é compactuar das ideias de Sade, que entre outros adjetivos, é um corruptor por essência. Corromper o outro precisa de muito mais que o sadismo social.
Talvez critiquem essa minha posição com: Está se atendo aos conceitos da moral imposta e da formatação social! Digo: talvez! Embora uma pessoa para ser sadeana precise também quebrar seus paradigmas, transpor os preconceitos iniciais de nossa formação como indivíduos sociais. É transformar o sadismo social desnecessário e criar caminhos para corromper e mindfuckear a mente do outro. De forma que isso gere prazer para ambas as partes. Sadeanos gostam do prazer compartilhado, e se não extraímos isso de quem se submete às nossas perversidades, se não corrompemos, que tipo de interesse poderia haver nesse tipo de relação?
É não negar a razão do que fazemos, e porque fazemos! Pelo contrário, compreender nossas inclinações nos dá consciência para poder trabalhar característica tão natural. Fazer, portanto, que a crueldade se torne mais intensa, eficiente e, consequentemente, mais prazerosa. Ser sadeano não é ser cruel pela simples coisa, não é apenas o prazer em infligir dor, ou prazer banal em vislumbrar a perversidade dos atos. É ser cruel com a intencionalidade de corromper ainda mais o outro, e fazer com que aquele que deseja a dor (em todos os aspectos) compreenda as suas inclinações e porquês. Isso sim tem uma significância enorme!

É claro que algo cruel e perverso nos excita. Somos sádicos porque isso independe do contexto e involuntariamente acaba gerando prazer sexual, que está intimamente ligado à grandeza e a perda de controle do ego. Então pergunto: o que é um sádico sem controle de si mesmo? Se o ser não tem uma ação dirigida para além da maldade pela maldade. Como ele poderia compreender suas inclinações se ele não tem consciência de si, quem dirá consciência do outro. Essa é a diferença entre corromper pela crueldade e a crueldade banal.

O verdadeiro mal é feito por aquele que compreende seu sadismo e consegue trabalhá-lo para além do simplista sadismo social. O sadeano é aquele que, pela inteligência, ultrapassa a barreira do prazer banal, compreende suas inclinações e sabe perfeitamente ler o outro, entendendo que o prazer sádico está atrelado ao ato de corromper. E é através da perversão que alcançamos outros patamares, além da simples e banal coisa. A maldade pela maldade, sim, traz consigo o prazer banal e sexual, porém nada mais é que uma manifestação pobre e simplista do que de fato poderia ser.


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