"Escreva para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. E isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar o dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Escrever - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Então vai, escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel. Isso é escrever. Tirar sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto - exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te." Caio Fernando de Abreu.
Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mogwai

Nunca fui muito boa com datas comemorativas.

Véspera de natal, alguns anos atrás.
Tinha trabalhado horrores durante o dia e estava cansada.  Não tinha muito o que fazer, o programa do feriado seria livro, café e algum som. Em última hora um amigo me chama para ir à sua casa que mais um estava indo também. Afinal, nada melhor que três perdidos juntos.

Conversas, cigarros e algumas garrafas de vinho tinto seco misturado com cachaça de alambique... o que chamávamos de Lorem Ipsum Dolor.

E entre conversas sacanas vem no play o som de Mogwai, até então desconhecido para mim.
A expansão de si mesmo dentro das camadas de som e a sensação nítida do universo estendendo-se pelo toque e pela vibração entre os corpos e as fodeções.
Gosto da memória não linear. Tira-se muito mais do caos.
Três corpos, dois pintos, uma boceta, três cus, três bocas, infinitos dedos, um som.




terça-feira, 8 de novembro de 2011

Relatório masturbatório

Retornar ao texto Marcas de sangue, ancia em lê-lo, apenas mais uma vez...
Fechei os olhos, sorri desejosa por estar na oficina de tortura e ser aquele manequim imóvel, indefeso.
O compasso do estroboscópio em sintonia com as chibatadas. Uma pequena audição musical regulada pelo “metrônomo luz”, o som entrelaçado e harmonioso do estalado do couro na pele, os gemidos e suspiros deliciosos. Imagens congeladas, a beleza da cena. A pele macerando a cada beijo dos fios, saudade torturante da dor no corpo e alma,  a pele queimando como fogo, desespero por não poder auto infligir esses prazeres em minha carne com tanta primazia, com tanto prazer. A dor sem humilhação, sem controle, de nada servem aos meus sentidos.
Sai do mundo dos sonhos. Mexi as pernas na cadeira, e ao fazê-lo senti o molhado entre as pernas.
Ideias vem a mente, busca ansiosa por aparatos:  plug,  pênis e alguns prendedores, cinto de
couro mais pesado, outro mais longo com a espessura de um dedo.
Espelho, a imagem da necessidade refletida...os cabelos ligeiramente bagunçados, os olhos pesados
pela hora da madrugada...
Olhar sobre o corpo não perfeito, pernas longas e grossas demais, a barriga saliente que ainda resiste em permanecer aqui, o busto grande, os ombros largos. Ainda assim, imperfeita, gosto no que se vê.
Despir as roupas, observar a pele branca sem marcas, lembrar dos vergões desenhando a pele em roxo avermelhado.
De joelhos diante do espelho, toquei o peito,  apliquei pequenos castigos. Torções, respiração acelera, ainda não o suficiente, os olhos ainda não lacrimejaram de dor..  mais... o corpo treme, e assim aparecem as sensações já conhecidas, a imagem no espelho saem de foco. 
De costas para a imagem refletida, de quatro, queria ver as entradas, uma nem ainda usada como deveria. 
O corpo apoiado em um dos braços,  uma das mãos a passear pelos orifícios, olhos curiosos por sobre o ombro, é diferente e exitante vislumbrar-se assim. Lembrei de Anais Nin em suas experimentações literárias. 
Os dedos escorregando por entre as pernas,  um deles introduzi, e o deixei passear vagarosamente pelo espaço ainda não explorado. Alcancei o plug, o enfiei na boca, chupei.. força-lo sem cerimônias. Sento o corpo sobre as pernas, o troco ereto, o cinto de couro mais grosso, as lambadas começam, sequencias. Desferir os golpes sobre a carne. Mais uma sequência, a respiração acelera, os gemidos sutis surgem, a carne queima quando toca a pele sensível. Mais uma sequência, o corpo a tremer,sentir o plug a cada vibração, a parte interna das coxas deslizam. Pênis, enfiei ainda com o vibra desligado.Olhei por sobre o ombro o corpo no espelho, os vergões vermelhos bem marcados a desenhar a carne.
Brincadeiras, olhar sair e penetrar novamente, tirei totalmente o pênis e vi o fio transparente a esticar, voltei a enfiá-lo, e deixei parado. Precisava das mãos livre. Peguei o outro cinto de couro, o mais fino. Enrolei uma das pontas um pouco na mão, de forma que ficasse um pouco mais curto. Voltei a posição, corpo ereto, desferi lambadas nas pernas, na pele sensível das coxas. A cada toque, a pele queimava como brasa, gemia e ria ao mesmo tempo. O corpo começa tremer, sem forças, rebolei em torno do pau artificial, que teimava em escorregar, em sair de mim,e sim,  desejei um de fato, e desejei a dor que consome, até agora havia sido insuficiente. Com o movimento do corpo os prendedores dos peitos voaram longe, não tive paciência pra ir buscá-los..Liguei o vibra, soltei um pouco mais do cinto, e voltei a lambadas nas costas. Não suportaria segurar o gozo por muito tempo. Bati o cinto com prazer, queria tudo. Não sei em qual das contas o braço não conseguia se levantar mais, não tinha forças. O corpo prostrado de quatro vibrava, minha cara no chão, a respiração e gemidos se entrelaçavam, senti o gozo,  torci um dos bicos com tanta força que pensei que o arrancaria fora, e assim 'la petite mort' me acolheu mais uma vez. Contrai o corpo, e deixei-me assim, tremendo e gemendo até não suportar mais, totalmente compulsiva e viciada. 

 La Vênus del Espejos - Por Diego Velázquez

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Confessionário

Fui criada, no seio de uma família de cultura japonesa tradicionalista e católica. No inicio da educação, dos princípios e preceitos cristãos, me martirizava por não conseguir resistir ao pequenos prazeres inocentes que a masturbação proporcionava.

Os atos se tornaram um vicio, os pensamentos sujos e pecaminosos sempre me conduziam ao outro lado do abismo, mal eu sabia, em inocência de criança, que o mundo de fato era assim como sou.

Primeira comunhão, segundo ritual de passagem dentro da crença católica. Em meus 11 anos, fui enviada a um retiro pastoral, a preparação para momento tão importante da vida de uma criança religiosa.
E cá lá em seus momentos, chega a hora da primeira confissão: a libertação e absolvição dos pecado para uma vida em comunhão com Cristo! Pensa-se, o que uma criança de 11 anos tem a confessar? Uma ofensa feita ao pai e mãe? Uma briga de escola? Um palavrão? Um mau comportamento? Ah, os meus pecados, o meu comportamento não se enquadravam a época, nenhuma das alternativas me cabiam, minha sujeira era a mais deliciosa!
Antes a palestra do que são pecados, do que deve ser arrependido e confessado. Que atos perversos devem receber absolvição.  Cá entre meus botões, nada daquilo dito se encaixava, minha geração era diferente da que temos hoje, a sexualidade ainda não era tão exposta.
Sendo assim, vai a criança cordeiro para o abate. Entro na sala preparada para, nada de extraordinário. A memória visual só me deixou recordações de duas cadeiras, uma vazia outra já ocupada pelo padre. O padre era jovem, olhos negros firmes e serenos, os cabelos pretos, o rosto andrógeno, o corpo esquio e esbelto. Não tinha desejos pelo corpo, não compreendia nada, mas os olhos, a forma como olhava, aquilo era diferente.
Primeiro ato, não sabia ao menos o que fazer, sendo assim fui conduzida:

- Ofendeu teu pai ou tua mãe?
- Magoou algum colega?
- Disse palavões?

Perguntas comuns, até ai soube me sair bem, sem sustos. Pensei que seria bem pior, meus segredos guardados seriam expostos, e eu seria massacrada, como tantas vezes fui repreendida quando pega em flagra por meus pais.
O padre se ajeita, e mais uma vez começa os questionamentos que tanto temia que viessem.

- Filha, você se toca?
- Você se toca, lá em baixo?
- Quando foi a ultima vez?
- Como você se toca?
- Diga-me minha filha, o que você sente?

Lembro da vergonha em responder cada pergunta, o rosto queimando, eu ali, sendo aberta, dilacerada.
O mais estranho de tudo, era o prazer em saber que outro sabia, era o prazer em dizer.
Limpei as lágrimas dos olhos, e com a cabeça baixa pude perceber uma pequena saliência nas calças do podre padre. Já tinha visto isso antes, em minhas bisbilhotagens pelas frestas das portas, pelos buracos de fechaduras. Observava os pais, os tios, os primos, qualquer um que desse chance, sou uma voyeur desde criança. Seguindo as imagens e impressões já vistas, bem sabia o que vinha depois das saliências...corpos se roçando, os suspiros que não sabia o que eram... lembravam muito o gemido da dor, a agonia.
O padre puxou a cadeira para mais perto, colocou meu rosto em suas mãos, carinhosamente limpou meus olhos, e aproximou meu rosto do seu. Os grandes olhos negros de deus me fuzilavam, o medo dilacerava minhas entranhas.
Fechei os olhos, e senti o macio da boca que beijava a minha, o primeiro beijo, a língua molhada forçando meus lábios a se abrirem, sentir a serpente maleável, quente e úmida explorando minha boca pequena, tentando brincar com a minha. As mãos apertando a carne dos braços, deslizando pelos meu projetos de peitinho que ainda não haviam despontado, os leves beliscões. Era criança demais para compreender, mas humana o suficiente para sentir.
A última palavra, olhava a boca do padre a proferir: Criança, não há pecado!
Afastou o corpo para longe do meu, suspirou profundamente e me mandou rezar vários pais-nossos e infinitas ave-marias. Sai da sala confessionário muda, paralisada, deus havia beijado meus lábios e me enchido de vontades.

Lembro ainda hoje, a noite, enquanto todos dormiam no seminário. Eu queimava em febre, desejava a boca, os dedos do padre ali, onde eu sempre colocava. Fechei as perninhas em torno da mão e roçei até sentir aquilo, que fazia a respiração acelerar, o corpo tremer, o coração bater, a alma se consumir.

Talvez seja por isso que durante anos a fio, na adolescência, entrava em igrejas, catedrais gigantes e pomposas e sentia frisson em me masturbar escondida nos confessionários, ou me roçar sentada diante do altar. Totalmente profana e vil!


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Relembrar

Quando criança, meus pais nos levavam todos os finais de semana a casa de meus avós japoneses. A fazenda era enorme, infinitas possibilidades, mas eu nunca me importei com as outras crianças, nem com as brincadeiras propostas por elas.
Gostava mesmo era de fuçar pela casa grande, ficava por horas perdida na biblioteca. Revirando livros e livros, ver as imagens, ilustrações, os jogos de tabuleiro, os bonecos kokeshi fabricados em argila pelo meu odíchan (avô). Tudo aquilo, era mágico e divertido demais para me render a presença das outras crianças, queria estar só. Minha paixão por livros começou cedo, mesmo sem saber ler. Me consumia entre as páginas, entre as letras e  infinitas imagens.
E assim, em uma das explorações pela casa, fui fisgada pela pilha de livros e revistas de um dos quartos. Não tinha ideia de quem era, apenas queria ver, era irresistível folhar, sentir o cheiro de papel, das páginas antigas, dos livros.
Sentei na cama próximo a pilha e comecei a orgia visual. Entre um livro e outro, descobri escondidos vários mangás japoneses, ilustrados de forma tão deliciosa, que meus olhos devoraram cada páginas. O que anos mais tarde, conheci como hentai.
Lembro que foi a minha primeira masturbação ilustrada, quando me vi de sentada já tinha passado a deitada. Por instinto me roçava entre os lençóis, o desconhecido consumia, vontades incompreendidas e nunca sentidas com tanta intensidade tomavam o controle de tudo. Assim, aprendi a usar os dedos, apertando, dando tapinhas sobre a pele vestida. Feito bichinho fui me enroscando, roçando, e suspirando até sentir “aquilo”.
Precisa dos mangás para mim, pelo menos um. Não poderia deixar para traz. Lembro de ter roubado um, e a cada semana eu trocava por outro e por outro. Passei meses assim, até ser pega mais tarde!
Meu tio, dono do quarto e dos mangás, deveria estar em seus 20 e poucos anos. Quando percebeu, ficou a me observar por semanas fazendo aquilo, o ritual! Certa vez, quando adentrei o quarto feliz e desesperada por mais, ele lá estava, esperado. Eu moleca de tudo, morrendo de vergonha, já tinha sido pega outras vezes por meus pais, e agora aquilo! Sabia o que me aguardava, provavelmente levaria uma bela surra e uns castigos eternos.
O inesperado se fez. A pilha de mangás sobre a cama, os olhos calmos e gentis, sem questionamentos de certo ou errado, de pecado ou santidade, sem repreender meus atos, ele me chamou para me sentar ao seu lado. Levei bronca por pegar o que não me pertencia, mas ainda assim,  me senti acolhida e confortável pela forma tranquila de identificação com que me olhou. Suas palavras: um dia também fui assim menina, um dia te explico tudo.
E assim foi, na adolescência foi meu orientador, conselheiro e amigo. Na fase adulta, meu companheiro de viagens sobre duas rodas, meu confessor de putarias desmedidas, de histórias absurdamente deliciosas, o libertino puro, até o fim!
Mesmo com tantas coerções, julgamentos.. ainda assim, não deixo as vontades aprisionadas, nem os desejos latentes escondidos, sou tímida claro, ele estava me ajudando a guspir na moral imposta, estava me remodelando para uma vida livre!
Se há alguém para agradecer, por me fazer assim, por eu me aceitar assim, esse alguém é ele!
Faz 5 anos que se foi, e é impossível não relembrar, não sentir falta!