"Escreva para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. E isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar o dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Escrever - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Então vai, escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel. Isso é escrever. Tirar sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto - exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te." Caio Fernando de Abreu.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Perversões I - Quando corromper se torna necessidade

Quando as pessoas conseguem se ver sem máscaras, expor socialmente o que somos, pode ser uma faca de dois gumes. Sofre-se a consequências discriminatórias de ser o que é, ao passo que outras dimensões se abrem por essa mesma característica.

Amigos reunidos, é inevitável a filosofia de botiquim. Entre um gole e outro, surge a conversa sobre sadomasoquismo, BDSM e afins. Abro a brecha, explico os pontos e as diferenças, é importante sempre abrir o leque. E de tão à vontade comigo mesma, uso minhas experiências para exemplificar pontos. Espera-se a reação de estranhamento por parte do outro, mas não vem, o que surge é curiosidade, em uns mais latente que em outros. Depois, novo tópico na mesa, mais um gole.
Um amigo homossexual, mais velho que eu, e diga-se de passagem muito bonito, estava no outro lado da mesa. Ele fica meio que incomodado, se ajeita várias vezes na cadeira, e por fim não contente, faz a mesa se mover para dar espaço e colocar sua cadeira ao meu lado.
Olhos brilhando, curiosidade corroendo, excitação. Sim, eu conhecia bem essas expressões. Conversamos noite a dentro sobre fetiches. Não estava respondendo a perguntas, pelo contrário, eu o enchia de pontos de interrogação quanto aos pensamentos já tão enraizadas na mente daquela criatura.

Mais umas semanas, novos encontros, e a necessidade dele ainda estava gritando. Casa de amigos, passamos parte do dia conversando, e em outros momentos ele soltava a deixa, que era rebatida na frente de todos do grupo. Ele abaixa os olhos, fica vermelho e abre um sorriso de satisfação. Era palpável o estado de desconforto e excitação, estava começando a sentir.

Final do dia, ele vem se despedir, tinha trabalho por fazer. Me abraça e diz:
- Não sei como nem porque, mas estou morrendo de tesão por ti! Não é crise de identidade sexual, só não sei, não entendo o que tá acontecendo!

A alma sádica fervilha, e senti o primeiro gosto em corromper o outro. Sem me importar com olhos alheios perdidos na cena. Pego na nuca da criatura e dou um tapa estalado.
- Tá... Criança, amanhã conversamos sobre isso.

Ele vai embora, com o rosto quente, vermelho, excesso de sangue... Meu corpo contraí, e a mente pensa alto: Ah, vai entender sim...

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