Capuz sobre a face, escuridão. Ouço o canto gregoriano dos monges vibrando pelos corredores de um mosteiro qualquer.
Saber onde e como, Morpheu não permite isso em seu mundo. Lembro dos meus quando chego nesse estado, quase um transbordar da alma, dos sentidos, da necessidade.
Corpo nu, imobilizado por cordas. O cheiro da madeira, poeira e mofo. Porta se abre, corpos a se mover, palavras em língua desconhecida.
A carne profana é analisada por mãos ásperas, esticada para a purificação através da dor.
Retirado o capuz, dor nos olhos, claridade de velas. Forço uma saída desesperada, as cordas cortam, vejo os vultos se locomovendo pela sala. E me deparo com uma parede em pedra, sebosa de mofo e repleta de materiais de tortura.
Sem esperar momento, sem critérios, sem preparação, sem uma palavra proferida que eu pudesse compreender, os acoites vieram, por quantas mãos não sei, mas uma apenas não poderia causar aquilo.
A carne das costas e pernas esquenta.. aquela sensação conhecida... fogo... o prazer em sentir os cortes a se fazer, a carne a se abrir.. o cheiro de sangue. Tentei gritar, mas não tinha voz.. não conseguir gritar.. um grito mudo.. um abrir de boca e estourar de tímpanos. Os cantos a ecoar...
Mãos me pegam e viram meus sentidos ao avesso, as pernas não se sustentam mais. O corpo é virado de frente... os olhos se abrem...duas criaturas, monges de cabeça e corpos cobertos.
Chorei um choro mudo e sem lágrimas, e ri endemoniada aos chicotes que estalaram a carne...o corpo não se sustenta mais... treme... vejo a carne dos peitos das pernas se dilacerar... quente.. escorrendo de mim.
Acordei assim, tremendo com vontade de gozar e urinar...meio atordoada, sem muito tempo ou equilíbrio para chegar o banheiro, sinto os esguichos saindo.... gozo vem... ainda escuto ao fundo a música que consome.
"Escreva para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. E isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar o dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Escrever - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Então vai, escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel. Isso é escrever. Tirar sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto - exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te." Caio Fernando de Abreu.
domingo, 29 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Natal, família e outras atrocidades.
Datas comemorativas como natal nunca foram muito meu forte: família, festividades isso e aquilo, claro que é um tanto divertido, mas esse natal foi um tanto mais...
Fui para casa de meus pais, casa cheia, tios, primos e toda parafernalha necessária nesses momentos. Desde que comecei a brincar com cordas, sempre levo alguma a tira colo, se estiver entediada, tenho com o que brincar.
Natal e etc, nesse contexto não foi muito diferente, peguei minhas cordas e coloquei na bolsa por via das dúvidas.
E lá em seus momentos, entro no quarto de meu irmão, conversa aqui e ali. Já havíamos conversado um pouco sobre shibari, tiro as cordas da bolsa e começo a mostrar os nós. Interesse demonstrado, até o ponto em que olho para ele, e sem cerimônia, pego o braço e começo a amarrar, braços para trás, desenho a corda nos seus ombros e braços e assim vou brincando, até chegar a um the dragonfly sleeve. Foi a primeira tentativa em amarrar um corpo masculino, a sensação é tão divertida que eu parecia criança com presente nas mãos. O quanto é impressionante como as cordas se adaptam ao corpo e vice-versa.
O prazer em olhar os nós bem feitos, a simetria, a sacanagem em pensar nas possibilidades. Deito o corpo dele de bruços na cama, ele me olha e diz: - O que é que você vai fazer?! Palavras sarcásticas me vem a mente, mas mantenho a boca fechada. Porta aberta, passam tios com olhos estufados, mas sem nenhuma palavra. Eu apenas ria em contemplação a cena hilária.
Amarro os pés, dobro os joelhos e levo as cordas até as amarras das mãos, um hogtie bem elaborado.
Encosta na porta para observar minha irmã e o namorado, e como quem pensa alto, ele solta: - Já vi esses nós! A alma sádica fervilhado responde: - É mesmo, onde? O cara fica branco, engole em seco, e meio que balbucia: não lembro, de algum lugar. Eu fervilho por dentro, risada irônica, eles se afastam.
Tentativas de fotos com a câmera do celular, que não deu muito certo, mas isso não importava.
Paro, olho pra cena, ninguém mais perturba... a brincadeira não precisa ter conotação sexual pra ser divertida. Lembro, sim ele morre de cocegas! E eu judio um pouquinho, e racho que rir com os berros de desespero dele, mesclados entre gritos e gargalhadas.
Brincadeira interrompida pelo olhar assustado e protetor de minha mãe. Desamarro as cordas, e para minha surpresa final, vem a deixa de meu irmão: estranho, mas divertido!
Enquanto que para alguns, omitir se torna um fetiche, para mim, em muitos momentos, escancarar tem se tornada muito mais interessante!
Fui para casa de meus pais, casa cheia, tios, primos e toda parafernalha necessária nesses momentos. Desde que comecei a brincar com cordas, sempre levo alguma a tira colo, se estiver entediada, tenho com o que brincar.
Natal e etc, nesse contexto não foi muito diferente, peguei minhas cordas e coloquei na bolsa por via das dúvidas.
E lá em seus momentos, entro no quarto de meu irmão, conversa aqui e ali. Já havíamos conversado um pouco sobre shibari, tiro as cordas da bolsa e começo a mostrar os nós. Interesse demonstrado, até o ponto em que olho para ele, e sem cerimônia, pego o braço e começo a amarrar, braços para trás, desenho a corda nos seus ombros e braços e assim vou brincando, até chegar a um the dragonfly sleeve. Foi a primeira tentativa em amarrar um corpo masculino, a sensação é tão divertida que eu parecia criança com presente nas mãos. O quanto é impressionante como as cordas se adaptam ao corpo e vice-versa.
O prazer em olhar os nós bem feitos, a simetria, a sacanagem em pensar nas possibilidades. Deito o corpo dele de bruços na cama, ele me olha e diz: - O que é que você vai fazer?! Palavras sarcásticas me vem a mente, mas mantenho a boca fechada. Porta aberta, passam tios com olhos estufados, mas sem nenhuma palavra. Eu apenas ria em contemplação a cena hilária.
Amarro os pés, dobro os joelhos e levo as cordas até as amarras das mãos, um hogtie bem elaborado.
Encosta na porta para observar minha irmã e o namorado, e como quem pensa alto, ele solta: - Já vi esses nós! A alma sádica fervilhado responde: - É mesmo, onde? O cara fica branco, engole em seco, e meio que balbucia: não lembro, de algum lugar. Eu fervilho por dentro, risada irônica, eles se afastam.
Tentativas de fotos com a câmera do celular, que não deu muito certo, mas isso não importava.
Paro, olho pra cena, ninguém mais perturba... a brincadeira não precisa ter conotação sexual pra ser divertida. Lembro, sim ele morre de cocegas! E eu judio um pouquinho, e racho que rir com os berros de desespero dele, mesclados entre gritos e gargalhadas.
Brincadeira interrompida pelo olhar assustado e protetor de minha mãe. Desamarro as cordas, e para minha surpresa final, vem a deixa de meu irmão: estranho, mas divertido!
Enquanto que para alguns, omitir se torna um fetiche, para mim, em muitos momentos, escancarar tem se tornada muito mais interessante!
domingo, 13 de novembro de 2011
Ulisses
Toca-me . Olhos doces. Mão doce. Estou aqui. Oh toca-me logo, agora.
Qual é essa palavra sabida de todos os homens?
Estou mesmo aqui sozinha. Triste também. Toca, toca-me.
sábado, 12 de novembro de 2011
Sugar e ser sugado pelo amor
Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pelo
que não pertence a mim nem te pertece
um gozo de fusão difusa transfusão
o chupar e ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.
Carlos Drummond de Andrade
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pelo
que não pertence a mim nem te pertece
um gozo de fusão difusa transfusão
o chupar e ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Relatório masturbatório
Retornar ao texto Marcas de sangue, ancia em lê-lo, apenas mais uma vez...
Fechei os olhos, sorri desejosa por estar na oficina de tortura e ser aquele manequim imóvel, indefeso.
O compasso do estroboscópio em sintonia com as chibatadas. Uma pequena audição musical regulada pelo “metrônomo luz”, o som entrelaçado e harmonioso do estalado do couro na pele, os gemidos e suspiros deliciosos. Imagens congeladas, a beleza da cena. A pele macerando a cada beijo dos fios, saudade torturante da dor no corpo e alma, a pele queimando como fogo, desespero por não poder auto infligir esses prazeres em minha carne com tanta primazia, com tanto prazer. A dor sem humilhação, sem controle, de nada servem aos meus sentidos.
Sai do mundo dos sonhos. Mexi as pernas na cadeira, e ao fazê-lo senti o molhado entre as pernas.
Ideias vem a mente, busca ansiosa por aparatos: plug, pênis e alguns prendedores, cinto de
couro mais pesado, outro mais longo com a espessura de um dedo.
Espelho, a imagem da necessidade refletida...os cabelos ligeiramente bagunçados, os olhos pesados
pela hora da madrugada...
Olhar sobre o corpo não perfeito, pernas longas e grossas demais, a barriga saliente que ainda resiste em permanecer aqui, o busto grande, os ombros largos. Ainda assim, imperfeita, gosto no que se vê.
Despir as roupas, observar a pele branca sem marcas, lembrar dos vergões desenhando a pele em roxo avermelhado.
De joelhos diante do espelho, toquei o peito, apliquei pequenos castigos. Torções, respiração acelera, ainda não o suficiente, os olhos ainda não lacrimejaram de dor.. mais... o corpo treme, e assim aparecem as sensações já conhecidas, a imagem no espelho saem de foco.
De costas para a imagem refletida, de quatro, queria ver as entradas, uma nem ainda usada como deveria.
O corpo apoiado em um dos braços, uma das mãos a passear pelos orifícios, olhos curiosos por sobre o ombro, é diferente e exitante vislumbrar-se assim. Lembrei de Anais Nin em suas experimentações literárias.
Os dedos escorregando por entre as pernas, um deles introduzi, e o deixei passear vagarosamente pelo espaço ainda não explorado. Alcancei o plug, o enfiei na boca, chupei.. força-lo sem cerimônias. Sento o corpo sobre as pernas, o troco ereto, o cinto de couro mais grosso, as lambadas começam, sequencias. Desferir os golpes sobre a carne. Mais uma sequência, a respiração acelera, os gemidos sutis surgem, a carne queima quando toca a pele sensível. Mais uma sequência, o corpo a tremer,sentir o plug a cada vibração, a parte interna das coxas deslizam. Pênis, enfiei ainda com o vibra desligado.Olhei por sobre o ombro o corpo no espelho, os vergões vermelhos bem marcados a desenhar a carne.
Brincadeiras, olhar sair e penetrar novamente, tirei totalmente o pênis e vi o fio transparente a esticar, voltei a enfiá-lo, e deixei parado. Precisava das mãos livre. Peguei o outro cinto de couro, o mais fino. Enrolei uma das pontas um pouco na mão, de forma que ficasse um pouco mais curto. Voltei a posição, corpo ereto, desferi lambadas nas pernas, na pele sensível das coxas. A cada toque, a pele queimava como brasa, gemia e ria ao mesmo tempo. O corpo começa tremer, sem forças, rebolei em torno do pau artificial, que teimava em escorregar, em sair de mim,e sim, desejei um de fato, e desejei a dor que consome, até agora havia sido insuficiente. Com o movimento do corpo os prendedores dos peitos voaram longe, não tive paciência pra ir buscá-los..Liguei o vibra, soltei um pouco mais do cinto, e voltei a lambadas nas costas. Não suportaria segurar o gozo por muito tempo. Bati o cinto com prazer, queria tudo. Não sei em qual das contas o braço não conseguia se levantar mais, não tinha forças. O corpo prostrado de quatro vibrava, minha cara no chão, a respiração e gemidos se entrelaçavam, senti o gozo, torci um dos bicos com tanta força que pensei que o arrancaria fora, e assim 'la petite mort' me acolheu mais uma vez. Contrai o corpo, e deixei-me assim, tremendo e gemendo até não suportar mais, totalmente compulsiva e viciada.
La Vênus del Espejos - Por Diego Velázquez
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Poema de amor sobre um tema de Whitman
Entrarei em silêncio no quarto de dormir e me deitarei entre noivo e noiva,
esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto, braços pousado sobre os olhos da escuridão, afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei a sua pele
e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e abrirei e mostrarei seu traseiro,
pernas erguidas e dobradas para receber, caralho atormentado na escuridão, atacando
levantado do buraco até a cabeça pulsante,
corpos entrelaçados nus e trêmulos, coxas quentes e nádegas enfiadas uma nas outras
e os olhos, olhos cintilantes encantadores, abrindo-se em olhares e abandono,
e os gemidos do movimento, vozes, mãos no ar, mãos entre as coxas,
mãos na umidade de macios quadris, palpitante contração de ventres
até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençóis
e a noiva grite pedindo perdão e o noivo se cubra de lágrimas de paixão e compaixão
e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos e beijos de adeus
tudo isso antes que a mente desperte, atrás das cortinas e portas fechadas da casa escurecida
cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite,
fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.
Ginsberg, Allen. Uivo, Kaddish e outros poemas, Porto Alegre. Ed.L&M Pocket. 2005. p.133
esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto, braços pousado sobre os olhos da escuridão, afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei a sua pele
e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e abrirei e mostrarei seu traseiro,
pernas erguidas e dobradas para receber, caralho atormentado na escuridão, atacando
levantado do buraco até a cabeça pulsante,
corpos entrelaçados nus e trêmulos, coxas quentes e nádegas enfiadas uma nas outras
e os olhos, olhos cintilantes encantadores, abrindo-se em olhares e abandono,
e os gemidos do movimento, vozes, mãos no ar, mãos entre as coxas,
mãos na umidade de macios quadris, palpitante contração de ventres
até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençóis
e a noiva grite pedindo perdão e o noivo se cubra de lágrimas de paixão e compaixão
e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos e beijos de adeus
tudo isso antes que a mente desperte, atrás das cortinas e portas fechadas da casa escurecida
cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite,
fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.
Ginsberg, Allen. Uivo, Kaddish e outros poemas, Porto Alegre. Ed.L&M Pocket. 2005. p.133
domingo, 6 de novembro de 2011
A Palavra Libertina.
Vejamos o velho Antonio de Moraes Silva, tão distante dos aurélios insípidos de competência:
Libertinágem, s.f. (do Fr. libertinage) O vício de ser libertino, de ser mal morigerado; desregramento dos costumes; impudicícia, devassidão, incredulidade na religião; prática de atos contrários aos seus princípios;
Libertino, O filho do liberto; daquele, que sendo cativo se forrará. O liberto. Que é licencioso, dissoluto na vida, mal procedido. Que é incrédulo na religião, e ofende as suas práticas; que é imoral em costumes, dissoluto, devasso, depravado.
O libertino, vejam que maravilha, não é morigerado, aquele que tem bons costumes, o que inspira bons costumes e doutrina a moral, o obediente, o pio. O libertino escreve e lê a libertinagem: ele desdobra a libertinagem, o não querido por “fora dos panos” mas o desejado por “dentro dos panos”. O libertino pode se dar o direito [ele mata também sem se dar ao direito, longe dos direitos] de matar o outro para o seu prazer e esse direito não emana de uma permissão, de uma concessão, de um respeito a uma ordem constituída: o libertino constitui sua ordem e essa ordem se esgota na expectativa, no prazer e no gozo: sua vida é se libertar libertando o outro dos seus limites [os cordeiros têm horror-pânico ao liberto-lobo que lhe devora o bolo].
O libertino afasta, dilui, destrói os limites. Faz fluir os limites: o limite não é o texto, não é o corpo masculino, feminino (todos dois são performances de papéis sociais travestidos de gênero natural ou cultural) ou homossexual (outra performance): o limite para o corpo não é nenhuma das novidades velhas: Formicofilia, amalgatofilia, anastemafilia, autopederastia, ecouterismo, frottage, higrofilia, misofilia, acrotomofilia, zoofilia, dendrofilia, enema, tafefilia, necrofilia: também performances de discursos e de possibilidades de corpo, de desejo, de deslimite, de desrespeito: o limite é a melancia e o além da melancia; o tronco da bananeira, a banana, a cenoura e o além dos vegetais, além da brecha e do pontudo das pedras.
Restam todos os limites sonhados no desejo: e o texto é bem mais que um corpo: ou melhor, o texto é um corpo de papel e tinta ou bits ou qualquer coisa que possa multiplicá-lo: é um corpo de desejo negativo. Para o libertino a grafia (texto e pré-texto) é porno-grafia. [Nada mais querido e desejado que a pornografia e a obscenidade e nada mais negado e escondido [a sedução do lobo: ver e viver e desejar aquilo que vê, deseja e vive o lobo]: há sempre muitas coisas sobre o pornográfico: ele é algo esmagado sobre outras coisas: escondido. Dos textos do mundo nenhum é mais pornográfico que aqueles da literatura: transgressão viva dentro da linguagem que se põe a gozar, para nada, por safadeza, por pura maldade, por perversa-idade [“Quem ri quando goza/É poesia/Até quando é prosa” (Há lice? Who is)]: há uma ofensa maior que escrever? Kafka assim feria o pai.]
A porno-grafia é uma linguagem trans-a-gressiva: é um constante levar ao limite, um intermitente afastar os limites, é um des-velar, mas o ve-lar do des-velar se faz no limite e no se afastar do limite e não num simples en-cobrir. O ve-lado do porno-grafico é o mais des-velado dos en-cobertos: é o des-velado que não cessa de se des-velar e des-ve-lar seu próprio velamento: e seu prazer, e seu gozo ad-vém deste des-cobrir.
O libertino é obsessivo e obsceno. Até mesmo a normalidade é para ele uma trans(a)gressão. Sem a trans(a)gressão não há libertinagem, não há leitura, não há interpret-ação. Sem a pele, sem o buraco da fechadura, sem o esgar de prazer, sem a palavra rasgada em sua normalidade, não há o libertino. O libertino é aquele que vive com a con-tr-adição, com o i-lógico, o para-doxal, o des-medido: seu fluxo é criar textos para nada, para o gozo, para des-dizer, para contra-dizer: o seu é um dis-ser.
A Literatura está sempre longe da libertinagem. Como palavra da ordem, é palavra disciplinada. A literatura é pura libertinagem. O escritor escreve a Literatura enquanto o libertino deixa passar a literatura, simplesmente para seu gozo e de quem quiser ouvir.
O Madeirismo é uma libertinagem.
Alberto Lins Caldas
sábado, 5 de novembro de 2011
A Vênus das Peles e o Masoquismo
A leitura dos “clássicos” como Masoch e Sade vieram tarde, mas de certa forma, a maturidade de hoje propicia boa qualidade na leitura, culminando num leque mais amplo de divagações. Escrever é um vomitar da mente, é expurgar pensamentos, tenho essa necessidade latente a anos.
Pensar sobre masoquismo, requer leitura e experimentações, li em Freud, mas creio que Masoch é a ponta, o feeling em tudo isso. Livros são repositórios do pensar, links que podem expandir e conectar a mente em outras frequências. Claro, sou uma viciada!
Um pensar que gosto muito, a visão de Sartre a respeito da leitura: o texto só adquire sentido estético quando o leitor, pela sua consciência imaginante, cria significado para as frases. Por polir o texto com sua imaginação criadora, o leitor pode expandir-se em criador, atuando como reagente literário. O artista se confunde com a obra, é o olhar imaginante do leitor que se responsabiliza pela criação.
Fazendo uso de minha liberdade e imaginação criadora. Pensando um pouco sobre masoquismo, e suas origens e bases. Vamos ao primeiro: A Vênus das Peles de Sacher Masoch.
Fazendo uso de minha liberdade e imaginação criadora. Pensando um pouco sobre masoquismo, e suas origens e bases. Vamos ao primeiro: A Vênus das Peles de Sacher Masoch.
A Vênus e Severin.
Severin é desejo, e vive suas aspirações num perspectiva idealizada. De forma poética, ele almeja a Vênus das Peles, e encontra em Wanda o esteriótipo para exteriorização de si mesmo. Gregor, carrega a carga emocional de seu tempo, a idolatria e a busca pelo inalcançável. Pura influência de Goethe, na literatura de Masoch. E creio que, sejam esses os fatores base, para o jogo de manipulação, e a busca incontrolável em fazer Wanda, se adequar aos moldes que ele tanto necessita.
Gregor é parecido com Werther, a idolatria, o sofrimento, a frustração e a fuga. No caso de Severin, o desejo é tão idealizado, que na perceptiva de alcançá-lo, frustra-se com facilidade, tangenciando o caminho. Penso eu que, Gregor sente mais prazer na manipulação de Wanda, do que no próprio prazer do sofrimento. Os dois nesse caso, caminham juntos, e quando ele perde uma das pontas, se sente perdido na busca, no prazer e no próprio desejar.
Gregor é parecido com Werther, a idolatria, o sofrimento, a frustração e a fuga. No caso de Severin, o desejo é tão idealizado, que na perceptiva de alcançá-lo, frustra-se com facilidade, tangenciando o caminho. Penso eu que, Gregor sente mais prazer na manipulação de Wanda, do que no próprio prazer do sofrimento. Os dois nesse caso, caminham juntos, e quando ele perde uma das pontas, se sente perdido na busca, no prazer e no próprio desejar.
Vejo Masoch, como a ponta do pensar em tudo isso. O sofrimento e prazer, se encontram sim, em Severin. E é impossível comparar a leitura de seu tempo com nossos olhos. Como se pautar no “masoquismo” de Severin para trabalhar com o “esteriótipo de masoquista” que temos hoje?
Li as palavras de Aurorah, a elfa de meu Professor, que tinham o seguinte dizer: “Severin um idealizador, que nunca está satisfeito e se entrega mais a uma ilusão e fantasia do que a realização com as coisas que de fato acontecem” E creio mesmo que esse seja o ponto, Severin vive fantasia, portanto a idealização é tamanha que se torna inalcançável. Quando se aproxima da realização, do desejo inicial, se frustra, vivendo um eterno desconforto, uma eterna busca pelo inalcançável.
Outra questão muito pertinente e interessante, que surgiu nesse mesmo comentário:
“Fico pensando que existe uma verdade nisso nos que se dizem masoquistas atualmente, a vontade de cada vez ir mais longe, aguentar mais, chegar a outros patamares e fantasias mais complexas”.
Sinceramente, creio que essa seja uma “característica do masoquista”, uma necessidade!
Para trabalhar o masoquismo sem fugir da perspectiva de Masoch, preciso abrir dois parênteses, vejo muita diferença na submissão e no masoquismo. A submissão é entrega plena, aceita-se como é, e abdica-se de si mesmo em detrimento do outro, e sentir prazer nisso, creio que essa, é a ideia base. Quanto ao masoquismo, a entrega acontece em primeira instância a si mesmo, para depois se completar na entrega ao outro.
A necessidade de ir além:
Se pensarmos, a dor faz parte do indivíduo, faz parte de seu processo de crescimento sensível e de adaptação ao mundo físico e social. O ponto em questão é, o que que faz um ser, sentir necessidade, desejo na dor, seja ela emocional ou física. Já que a grande maioria não tem facilidade para trabalhá-la.
Sempre pensei no masoquista como um dos extremos, desejar a dor é desafiar de si mesmo, é abrir as portas do sentir. Entregar-se a dor é um limite, um liminar, uma linha tênue para sentidos, para sensações.. é o uso extremo do corpo e mente. É uma batalha interna em saber o quando disso posso suportar, o quanto isso posso sentir, o quanto minha dor satisfaz o outro, o quanto isso me traz questionamentos, compreensões e divagações da mente. O quanto, e como posso converter e somar a dor em prazer, em gozo.
Não é a toa, que a dor, é um limite para muitos. Mesmo que essa característica faça parte de todos os seres.
Se pensarmos, a dor faz parte do indivíduo, faz parte de seu processo de crescimento sensível e de adaptação ao mundo físico e social. O ponto em questão é, o que que faz um ser, sentir necessidade, desejo na dor, seja ela emocional ou física. Já que a grande maioria não tem facilidade para trabalhá-la.
Sempre pensei no masoquista como um dos extremos, desejar a dor é desafiar de si mesmo, é abrir as portas do sentir. Entregar-se a dor é um limite, um liminar, uma linha tênue para sentidos, para sensações.. é o uso extremo do corpo e mente. É uma batalha interna em saber o quando disso posso suportar, o quanto isso posso sentir, o quanto minha dor satisfaz o outro, o quanto isso me traz questionamentos, compreensões e divagações da mente. O quanto, e como posso converter e somar a dor em prazer, em gozo.
Não é a toa, que a dor, é um limite para muitos. Mesmo que essa característica faça parte de todos os seres.
O desconforto, a idealização e a eterna busca em Severin, ao meu ver se encaixa perfeitamente no masoquista hoje. O desconforto seja qual for, tira o sujeito de sua zona de conforto, e ao fazer isso, as percepções se ampliam. É a eterna busca, o desejo de sempre ir além.
O desejo move o ser, e o prazer o completa.
sábado, 24 de setembro de 2011
O sonho
Sonhos, o mergulho íntimo na sobra. Quase nunca recordo dos meus, a não ser quando os tenho em estado semiacordada. Sei que estou dormindo, tenho consciência dentro do sonho.. como se conectasse meu subconsciente.
Não lembro de tudo, sonhos não são lineares, nem tem sentido imediato. Uma tentativa de descrever, e tentar compreender.
Não sabia onde estava, nem como havia chegado lá. O lugar, a floresta densa, obscura, fui arrastada por mãos, que não sabia de quem, para dentro de uma choupana, ou algo assim.
Em pé, fui amarrada em alguma coisa, de modo que meu corpo ficasse meio suspenso pelas mãos. Sentia presenças, não sabia se aquilo eram homens.. aquelas criaturas tinham forma humana, mas não tinham rosto nem olhos, e sua maldade era latende. Eu estava abandonada, exposta para aquelas coisas, o medo consumia.
O Professor estava entre eles, seus olhos negros me fuzilavam, e eu queimava dentro deles. Seus lábios proferiam coisas, mas eu não tinha ouvidos, não conseguia compreender sequer uma palavra.
Fui chicoteada, as primeiras nem agrediram a carne, não sentia ardor, dor, o corpo estava anestesiado. As criaturas sem olhos, fecharam o circulo ao nosso redor, as chicoteadas se intensificaram, não era apenas uma mão a me castigar, as varias mãos das coisas sem rosto acompanhavam a mão de meu Professor. Só assim, a dor se fez sentir. Como numa sequencia harmônia, sentia o estalado do couro na pele, a dor, abrindo as portas para viajem interior. Me vi, como nas experiências passadas, mergulhar no medo e prazer. O medo em perder o controle. A dor, que conduz minha mente a outros mundos, aquela que sozinha não consigo alcançar. O sangue quente escorrendo de mim, o cheiro dele impregnando o lugar. Gosto dos extremos, estou a oscilar pelos meus, o abismo sempre me foi interessante, um vício. Não tinha mais controle sobre o corpo, pensamentos, era tudo simples: apenas sentir.
Quando fui desamarrada, o corpo em frangalhos se despedaçou no chão. Meu Professor me levantou, e conduziu-me até a porta. Forçando minha visão para a noite, para a floresta. E pela primeira vez sua voz se fez ouvir:
- Corra, lobos sentem o cheiro de medo!
- Corra, lobos sentem o cheiro de medo!
E sem saber o porque, sai na noite, ao encontro das árvores. A cada passo, tudo se tornava mais sombrio. A floresta me afogava, ficava mais densa, e eu perdida, fugindo não sei de que. Medo e fobia.
A certa altura do percurso, outros seres se juntavam ao meu passo, eles também corriam, mais aflitos que eu. Pareciam saber porque fugir. Medo se intensificou, instintivamente, me juntei ao pânico coletivo.
Cheguei a uma clareira, havia umas amarrações feitas em bambu. As pessoas sem rosto, aqueles que corriam comigo diziam aos berros.
- Prendam-se aqui, não há mais como fugir!
- Prendam-se aqui, não há mais como fugir!
Fique perdida, não sabia o que fazer. Alguns mais desesperados que eu, se adiantaram e subiram nos lugares mais altos. Para mim sobrou um, muito desajeitado, que além de ser próximo ao chão, não protegia meu corpo de forma alguma. E eu assim deitei: de barriga para baixo, a cabeça... quase o troco todo a mostra, as pernas soltas sem proteção, com as mãos esticadas segurando os bambus finos, que de tão frágeis parecia que iam arrebentar a qualquer instante.
Depois silêncio, meu olhos procuravam na floresta, o que me fazia sentir aquilo. Foi quando percebi que não consegui ver nada, tudo era escuridão e silêncio. Eu também não tinha mais olhos.
Segundos depois, pude sentir a presença de algo grande, arfando imponente. Era o lobo. A criatura se aproximava, não consegui ver com os olhos, mas, de alguma forma, eu via através dos sentidos.
O lobo se aproximou, eu sentia a respiração da criatura diretamente em meu rosto. Lembrei das palavras: - Lobos sentem cheiro do medo.
A criatura abocanhou meu ombro direito, o cheiro de sangue, o calor, a dor. A coisa rosnou, fungou, balançou a cabeça, dilacerando minha carne. Tentando extrair de mim o grito, tentando sorver meu medo.
Não havia medo. Eu sentia prazer. Fiquei calada, rendida. Não me importava em ser consumida, a sensação era confortável, como se a vida se completasse assim. Não me importava se tudo terminasse ali, na verdade, agora acordada, com os pensamentos convulsos, vejo que ser devorada não era o fim, era o início de mim mesma. Se eu fosse devorada pelo lobo, eu seria parte dele. Minha carne seria sua carne, eu seria o lobo também. Forte, brutal, imponente!
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Confessionário
Fui criada, no seio de uma família de cultura japonesa tradicionalista e católica. No inicio da educação, dos princípios e preceitos cristãos, me martirizava por não conseguir resistir ao pequenos prazeres inocentes que a masturbação proporcionava.
Os atos se tornaram um vicio, os pensamentos sujos e pecaminosos sempre me conduziam ao outro lado do abismo, mal eu sabia, em inocência de criança, que o mundo de fato era assim como sou.
Primeira comunhão, segundo ritual de passagem dentro da crença católica. Em meus 11 anos, fui enviada a um retiro pastoral, a preparação para momento tão importante da vida de uma criança religiosa.
E cá lá em seus momentos, chega a hora da primeira confissão: a libertação e absolvição dos pecado para uma vida em comunhão com Cristo! Pensa-se, o que uma criança de 11 anos tem a confessar? Uma ofensa feita ao pai e mãe? Uma briga de escola? Um palavrão? Um mau comportamento? Ah, os meus pecados, o meu comportamento não se enquadravam a época, nenhuma das alternativas me cabiam, minha sujeira era a mais deliciosa!
Antes a palestra do que são pecados, do que deve ser arrependido e confessado. Que atos perversos devem receber absolvição. Cá entre meus botões, nada daquilo dito se encaixava, minha geração era diferente da que temos hoje, a sexualidade ainda não era tão exposta.
Sendo assim, vai a criança cordeiro para o abate. Entro na sala preparada para, nada de extraordinário. A memória visual só me deixou recordações de duas cadeiras, uma vazia outra já ocupada pelo padre. O padre era jovem, olhos negros firmes e serenos, os cabelos pretos, o rosto andrógeno, o corpo esquio e esbelto. Não tinha desejos pelo corpo, não compreendia nada, mas os olhos, a forma como olhava, aquilo era diferente.
Primeiro ato, não sabia ao menos o que fazer, sendo assim fui conduzida:
- Ofendeu teu pai ou tua mãe?
- Magoou algum colega?- Disse palavões?
Perguntas comuns, até ai soube me sair bem, sem sustos. Pensei que seria bem pior, meus segredos guardados seriam expostos, e eu seria massacrada, como tantas vezes fui repreendida quando pega em flagra por meus pais.
O padre se ajeita, e mais uma vez começa os questionamentos que tanto temia que viessem.
- Filha, você se toca?
- Você se toca, lá em baixo?- Quando foi a ultima vez?
- Como você se toca?
- Diga-me minha filha, o que você sente?
Lembro da vergonha em responder cada pergunta, o rosto queimando, eu ali, sendo aberta, dilacerada.
O mais estranho de tudo, era o prazer em saber que outro sabia, era o prazer em dizer.
Limpei as lágrimas dos olhos, e com a cabeça baixa pude perceber uma pequena saliência nas calças do podre padre. Já tinha visto isso antes, em minhas bisbilhotagens pelas frestas das portas, pelos buracos de fechaduras. Observava os pais, os tios, os primos, qualquer um que desse chance, sou uma voyeur desde criança. Seguindo as imagens e impressões já vistas, bem sabia o que vinha depois das saliências...corpos se roçando, os suspiros que não sabia o que eram... lembravam muito o gemido da dor, a agonia.
O padre puxou a cadeira para mais perto, colocou meu rosto em suas mãos, carinhosamente limpou meus olhos, e aproximou meu rosto do seu. Os grandes olhos negros de deus me fuzilavam, o medo dilacerava minhas entranhas.
Fechei os olhos, e senti o macio da boca que beijava a minha, o primeiro beijo, a língua molhada forçando meus lábios a se abrirem, sentir a serpente maleável, quente e úmida explorando minha boca pequena, tentando brincar com a minha. As mãos apertando a carne dos braços, deslizando pelos meu projetos de peitinho que ainda não haviam despontado, os leves beliscões. Era criança demais para compreender, mas humana o suficiente para sentir.
Fechei os olhos, e senti o macio da boca que beijava a minha, o primeiro beijo, a língua molhada forçando meus lábios a se abrirem, sentir a serpente maleável, quente e úmida explorando minha boca pequena, tentando brincar com a minha. As mãos apertando a carne dos braços, deslizando pelos meu projetos de peitinho que ainda não haviam despontado, os leves beliscões. Era criança demais para compreender, mas humana o suficiente para sentir.
A última palavra, olhava a boca do padre a proferir: Criança, não há pecado!
Afastou o corpo para longe do meu, suspirou profundamente e me mandou rezar vários pais-nossos e infinitas ave-marias. Sai da sala confessionário muda, paralisada, deus havia beijado meus lábios e me enchido de vontades.
Lembro ainda hoje, a noite, enquanto todos dormiam no seminário. Eu queimava em febre, desejava a boca, os dedos do padre ali, onde eu sempre colocava. Fechei as perninhas em torno da mão e roçei até sentir aquilo, que fazia a respiração acelerar, o corpo tremer, o coração bater, a alma se consumir.
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