"Escreva para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. E isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar o dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Escrever - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Então vai, escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel. Isso é escrever. Tirar sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto - exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te." Caio Fernando de Abreu.

domingo, 13 de novembro de 2011

Ulisses

Toca-me . Olhos doces. Mão doce. Estou aqui. Oh toca-me logo, agora.
Qual é essa palavra sabida de todos os homens?
Estou mesmo aqui sozinha. Triste também. Toca, toca-me.

Joyce, James.  Ulisses

sábado, 12 de novembro de 2011

Sugar e ser sugado pelo amor

 Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante  boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pelo
que não pertence a mim nem te pertece
um gozo de fusão difusa transfusão
o chupar e ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Relatório masturbatório

Retornar ao texto Marcas de sangue, ancia em lê-lo, apenas mais uma vez...
Fechei os olhos, sorri desejosa por estar na oficina de tortura e ser aquele manequim imóvel, indefeso.
O compasso do estroboscópio em sintonia com as chibatadas. Uma pequena audição musical regulada pelo “metrônomo luz”, o som entrelaçado e harmonioso do estalado do couro na pele, os gemidos e suspiros deliciosos. Imagens congeladas, a beleza da cena. A pele macerando a cada beijo dos fios, saudade torturante da dor no corpo e alma,  a pele queimando como fogo, desespero por não poder auto infligir esses prazeres em minha carne com tanta primazia, com tanto prazer. A dor sem humilhação, sem controle, de nada servem aos meus sentidos.
Sai do mundo dos sonhos. Mexi as pernas na cadeira, e ao fazê-lo senti o molhado entre as pernas.
Ideias vem a mente, busca ansiosa por aparatos:  plug,  pênis e alguns prendedores, cinto de
couro mais pesado, outro mais longo com a espessura de um dedo.
Espelho, a imagem da necessidade refletida...os cabelos ligeiramente bagunçados, os olhos pesados
pela hora da madrugada...
Olhar sobre o corpo não perfeito, pernas longas e grossas demais, a barriga saliente que ainda resiste em permanecer aqui, o busto grande, os ombros largos. Ainda assim, imperfeita, gosto no que se vê.
Despir as roupas, observar a pele branca sem marcas, lembrar dos vergões desenhando a pele em roxo avermelhado.
De joelhos diante do espelho, toquei o peito,  apliquei pequenos castigos. Torções, respiração acelera, ainda não o suficiente, os olhos ainda não lacrimejaram de dor..  mais... o corpo treme, e assim aparecem as sensações já conhecidas, a imagem no espelho saem de foco. 
De costas para a imagem refletida, de quatro, queria ver as entradas, uma nem ainda usada como deveria. 
O corpo apoiado em um dos braços,  uma das mãos a passear pelos orifícios, olhos curiosos por sobre o ombro, é diferente e exitante vislumbrar-se assim. Lembrei de Anais Nin em suas experimentações literárias. 
Os dedos escorregando por entre as pernas,  um deles introduzi, e o deixei passear vagarosamente pelo espaço ainda não explorado. Alcancei o plug, o enfiei na boca, chupei.. força-lo sem cerimônias. Sento o corpo sobre as pernas, o troco ereto, o cinto de couro mais grosso, as lambadas começam, sequencias. Desferir os golpes sobre a carne. Mais uma sequência, a respiração acelera, os gemidos sutis surgem, a carne queima quando toca a pele sensível. Mais uma sequência, o corpo a tremer,sentir o plug a cada vibração, a parte interna das coxas deslizam. Pênis, enfiei ainda com o vibra desligado.Olhei por sobre o ombro o corpo no espelho, os vergões vermelhos bem marcados a desenhar a carne.
Brincadeiras, olhar sair e penetrar novamente, tirei totalmente o pênis e vi o fio transparente a esticar, voltei a enfiá-lo, e deixei parado. Precisava das mãos livre. Peguei o outro cinto de couro, o mais fino. Enrolei uma das pontas um pouco na mão, de forma que ficasse um pouco mais curto. Voltei a posição, corpo ereto, desferi lambadas nas pernas, na pele sensível das coxas. A cada toque, a pele queimava como brasa, gemia e ria ao mesmo tempo. O corpo começa tremer, sem forças, rebolei em torno do pau artificial, que teimava em escorregar, em sair de mim,e sim,  desejei um de fato, e desejei a dor que consome, até agora havia sido insuficiente. Com o movimento do corpo os prendedores dos peitos voaram longe, não tive paciência pra ir buscá-los..Liguei o vibra, soltei um pouco mais do cinto, e voltei a lambadas nas costas. Não suportaria segurar o gozo por muito tempo. Bati o cinto com prazer, queria tudo. Não sei em qual das contas o braço não conseguia se levantar mais, não tinha forças. O corpo prostrado de quatro vibrava, minha cara no chão, a respiração e gemidos se entrelaçavam, senti o gozo,  torci um dos bicos com tanta força que pensei que o arrancaria fora, e assim 'la petite mort' me acolheu mais uma vez. Contrai o corpo, e deixei-me assim, tremendo e gemendo até não suportar mais, totalmente compulsiva e viciada. 

 La Vênus del Espejos - Por Diego Velázquez

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Poema de amor sobre um tema de Whitman

Entrarei em silêncio no quarto de dormir e me deitarei entre noivo e noiva,
esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto, braços pousado sobre os olhos da escuridão, afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei a sua pele
e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e abrirei e mostrarei seu traseiro,
pernas erguidas e dobradas para receber, caralho atormentado na escuridão, atacando
levantado do buraco até a cabeça pulsante,
corpos entrelaçados nus e trêmulos, coxas quentes e nádegas enfiadas uma nas outras
e os olhos, olhos cintilantes encantadores, abrindo-se em olhares e abandono,
e os gemidos do movimento, vozes, mãos no ar, mãos entre as coxas,
mãos na umidade de macios quadris, palpitante contração de ventres
até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençóis
e a noiva grite pedindo perdão e o noivo se cubra de lágrimas de paixão e compaixão
e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos e beijos de adeus
tudo isso antes que a mente desperte, atrás das cortinas e portas fechadas da casa escurecida
cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite,
fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.

Ginsberg, Allen. Uivo, Kaddish e outros poemas, Porto Alegre.  Ed.L&M Pocket. 2005. p.133



domingo, 6 de novembro de 2011

A Palavra Libertina.

Vejamos o velho Antonio de Moraes Silva, tão distante dos aurélios insípidos de competência:

Libertinágem, s.f. (do Fr. libertinage) O vício de ser libertino, de ser mal morigerado; desregramento dos costumes; impudicícia, devassidão, incredulidade na religião; prática de atos contrários aos seus princípios;



Libertino, O filho do liberto; daquele, que sendo cativo se forrará. O liberto. Que é licencioso, dissoluto na vida, mal procedido. Que é incrédulo na religião, e ofende as suas práticas; que é imoral em costumes, dissoluto, devasso, depravado.

O libertino, vejam que maravilha, não é morigerado, aquele que tem bons costumes, o que inspira bons costumes e doutrina a moral, o obediente, o pio. O libertino escreve e lê a libertinagem: ele desdobra a libertinagem, o não querido por “fora dos panos” mas o desejado por “dentro dos panos”. O libertino pode se dar o direito [ele mata também sem se dar ao direito, longe dos direitos] de matar o outro para o seu prazer e esse direito não emana de uma permissão, de uma concessão, de um respeito a uma ordem constituída: o libertino constitui sua ordem e essa ordem se esgota na expectativa, no prazer e no gozo: sua vida é se libertar libertando o outro dos seus limites [os cordeiros têm horror-pânico ao liberto-lobo que lhe devora o bolo].

O libertino afasta, dilui, destrói os limites. Faz fluir os limites: o limite não é o texto, não é o corpo masculino, feminino (todos dois são performances de papéis sociais travestidos de gênero natural ou cultural) ou homossexual (outra performance): o limite para o corpo não é nenhuma das novidades velhas: Formicofilia, amalgatofilia, anastemafilia, autopederastia, ecouterismo, frottage, higrofilia, misofilia, acrotomofilia, zoofilia, dendrofilia, enema, tafefilia, necrofilia: também performances de discursos e de possibilidades de corpo, de desejo, de deslimite, de desrespeito: o limite é a melancia e o além da melancia; o tronco da bananeira, a banana, a cenoura e o além dos vegetais, além da brecha e do pontudo das pedras.

Restam todos os limites sonhados no desejo: e o texto é bem mais que um corpo: ou melhor, o texto é um corpo de papel e tinta ou bits ou qualquer coisa que possa multiplicá-lo: é um corpo de desejo negativo. Para o libertino a grafia (texto e pré-texto) é porno-grafia. [Nada mais querido e desejado que a pornografia e a obscenidade e nada mais negado e escondido [a sedução do lobo: ver e viver e desejar aquilo que vê, deseja e vive o lobo]: há sempre muitas coisas sobre o pornográfico: ele é algo esmagado sobre outras coisas: escondido. Dos textos do mundo nenhum é mais pornográfico que aqueles da literatura: transgressão viva dentro da linguagem que se põe a gozar, para nada, por safadeza, por pura maldade, por perversa-idade [“Quem ri quando goza/É poesia/Até quando é prosa” (Há lice? Who is)]: há uma ofensa maior que escrever? Kafka assim feria o pai.]

A porno-grafia é uma linguagem trans-a-gressiva: é um constante levar ao limite, um intermitente afastar os limites, é um des-velar, mas o ve-lar do des-velar se faz no limite e no se afastar do limite e não num simples en-cobrir. O ve-lado do porno-grafico é o mais des-velado dos en-cobertos: é o des-velado que não cessa de se des-velar e des-ve-lar seu próprio velamento: e seu prazer, e seu gozo ad-vém deste des-cobrir.

O libertino é obsessivo e obsceno. Até mesmo a normalidade é para ele uma trans(a)gressão. Sem a trans(a)gressão não há libertinagem, não há leitura, não há interpret-ação. Sem a pele, sem o buraco da fechadura, sem o esgar de prazer, sem a palavra rasgada em sua normalidade, não há o libertino. O libertino é aquele que vive com a con-tr-adição, com o i-lógico, o para-doxal, o des-medido: seu fluxo é criar textos para nada, para o gozo, para des-dizer, para contra-dizer: o seu é um dis-ser.

A Literatura está sempre longe da libertinagem. Como palavra da ordem, é palavra disciplinada. A literatura é pura libertinagem. O escritor escreve a Literatura enquanto o libertino deixa passar a literatura, simplesmente para seu gozo e de quem quiser ouvir.

O Madeirismo é uma libertinagem.

Alberto Lins Caldas


sábado, 5 de novembro de 2011

A Vênus das Peles e o Masoquismo

A leitura dos “clássicos” como Masoch e Sade vieram tarde, mas de certa forma, a maturidade de hoje propicia boa qualidade na leitura, culminando num leque mais amplo de divagações. Escrever é um vomitar da mente, é expurgar pensamentos, tenho essa necessidade latente a anos.
Pensar sobre masoquismo, requer leitura e experimentações, li em Freud, mas creio que Masoch é a ponta, o feeling em tudo isso. Livros são repositórios do pensar, links que podem expandir e conectar a mente em outras frequências. Claro, sou uma viciada!
Um pensar que gosto muito, a visão de Sartre a respeito da leitura: o texto só adquire sentido estético quando o leitor, pela sua consciência imaginante, cria significado para as frases. Por polir o texto com sua imaginação criadora, o leitor pode expandir-se em criador, atuando como reagente literário. O artista se confunde com a obra, é o olhar imaginante do leitor que se responsabiliza pela criação.
Fazendo uso de minha liberdade e imaginação criadora. Pensando um pouco sobre masoquismo, e suas origens e bases. Vamos ao primeiro: A Vênus das Peles de Sacher Masoch.

A Vênus e Severin.
Severin é desejo, e vive suas aspirações num perspectiva idealizada. De forma poética, ele almeja a Vênus das Peles, e encontra em Wanda o esteriótipo para exteriorização de si mesmo. Gregor, carrega a carga emocional de seu tempo, a idolatria e a busca pelo inalcançável. Pura influência de Goethe, na literatura de Masoch. E creio que, sejam esses os fatores base, para o jogo de manipulação, e a busca incontrolável em fazer Wanda, se adequar aos moldes que ele tanto necessita.
Gregor é parecido com Werther, a idolatria, o sofrimento, a frustração e a fuga. No caso de Severin, o desejo é tão idealizado, que na perceptiva de alcançá-lo, frustra-se com facilidade, tangenciando o caminho. Penso eu que, Gregor sente mais prazer na manipulação de Wanda, do que no próprio prazer do sofrimento. Os dois nesse caso, caminham juntos, e quando ele perde uma das pontas, se sente perdido na busca, no prazer e no próprio desejar.
Vejo Masoch, como a ponta do pensar em tudo isso. O sofrimento e prazer, se encontram sim, em Severin. E é impossível comparar a leitura de seu tempo com nossos olhos. Como se pautar no “masoquismo” de Severin para trabalhar com o “esteriótipo de masoquista” que temos hoje?

Li as palavras de Aurorah, a elfa de meu Professor, que tinham o seguinte dizer: “Severin um idealizador, que nunca está satisfeito e se entrega mais a uma ilusão e fantasia do que a realização com as coisas que de fato acontecem” E creio mesmo que esse seja o ponto, Severin vive fantasia, portanto a idealização é tamanha que se torna inalcançável. Quando se aproxima da realização, do desejo inicial, se frustra, vivendo um eterno desconforto, uma eterna busca pelo inalcançável.
Outra questão muito pertinente e interessante, que surgiu nesse mesmo comentário:
“Fico pensando que existe uma verdade nisso nos que se dizem masoquistas atualmente, a vontade de cada vez ir mais longe, aguentar mais, chegar a outros patamares e fantasias mais complexas”.
Sinceramente, creio que essa seja uma “característica do masoquista”, uma necessidade!

Para trabalhar o masoquismo sem fugir da perspectiva de Masoch, preciso abrir dois parênteses, vejo muita diferença na submissão e no masoquismo. A submissão é entrega plena, aceita-se como é, e abdica-se de si mesmo em detrimento do outro, e sentir prazer nisso, creio que essa, é a ideia base. Quanto ao masoquismo, a entrega acontece em primeira instância a si mesmo, para depois se completar na entrega ao outro.

A necessidade de ir além:
Se pensarmos, a dor faz parte do indivíduo, faz parte de seu processo de crescimento sensível e de adaptação ao mundo físico e social. O ponto em questão é, o que que faz um ser, sentir necessidade, desejo na dor, seja ela emocional ou física. Já que a grande maioria não tem facilidade para trabalhá-la.
Sempre pensei no masoquista como um dos extremos, desejar a dor é desafiar de si mesmo, é abrir as portas do sentir. Entregar-se a dor é um limite, um liminar, uma linha tênue para sentidos, para sensações.. é o uso extremo do corpo e mente. É uma batalha interna em saber o quando disso posso suportar, o quanto isso posso sentir, o quanto minha dor satisfaz o outro, o quanto isso me traz questionamentos, compreensões e divagações da mente. O quanto, e como posso converter e somar a dor em prazer, em gozo.
Não é a toa, que a dor, é um limite para muitos. Mesmo que essa característica faça parte de todos os seres.
O desconforto, a idealização e a eterna busca em Severin, ao meu ver se encaixa perfeitamente no masoquista hoje. O desconforto seja qual for, tira o sujeito de sua zona de conforto, e ao fazer isso, as percepções se ampliam. É a eterna busca, o desejo de sempre ir além.
O desejo move o ser, e o prazer o completa.


sábado, 24 de setembro de 2011

O sonho

Sonhos, o mergulho íntimo na sobra. Quase nunca recordo dos meus, a não ser quando os tenho em estado semiacordada. Sei que estou dormindo, tenho consciência dentro do sonho.. como se conectasse meu subconsciente.

Não lembro de tudo, sonhos não são lineares, nem tem sentido imediato. Uma tentativa de descrever, e tentar compreender.
Não sabia onde estava, nem como havia chegado lá. O lugar, a floresta densa, obscura, fui arrastada por mãos, que não sabia de quem, para dentro de uma choupana, ou algo assim.
Em pé, fui amarrada em alguma coisa, de modo que meu corpo ficasse meio suspenso pelas mãos. Sentia presenças, não sabia se aquilo eram homens.. aquelas criaturas tinham forma humana, mas não tinham rosto nem olhos, e sua maldade era latende. Eu estava abandonada, exposta para aquelas coisas, o medo consumia.
O Professor estava entre eles, seus olhos negros me fuzilavam, e eu queimava dentro deles. Seus lábios proferiam coisas, mas eu não tinha ouvidos, não conseguia compreender sequer uma palavra.
Fui chicoteada, as primeiras nem agrediram a carne, não sentia ardor, dor, o corpo estava anestesiado. As criaturas sem olhos, fecharam o circulo ao nosso redor, as chicoteadas se intensificaram, não era apenas uma mão a me castigar, as varias mãos das coisas sem rosto acompanhavam a mão de meu Professor. Só assim, a dor se fez sentir. Como numa sequencia harmônia, sentia o estalado do couro na pele, a dor, abrindo as portas para viajem interior. Me vi, como nas experiências passadas, mergulhar no medo e prazer. O medo em perder o controle. A dor, que conduz minha mente a outros mundos, aquela que sozinha não consigo alcançar. O sangue quente escorrendo de mim, o cheiro dele impregnando o lugar. Gosto dos extremos, estou a oscilar pelos meus, o abismo sempre me foi interessante, um vício. Não tinha mais controle sobre o corpo, pensamentos, era tudo simples: apenas sentir.
Quando fui desamarrada, o corpo em frangalhos se despedaçou no chão. Meu Professor me levantou, e conduziu-me até a porta. Forçando minha visão para a noite, para a floresta. E pela primeira vez sua voz se fez ouvir:


Corra, lobos sentem o cheiro de medo!

E sem saber o porque, sai na noite, ao encontro das árvores. A cada passo, tudo se tornava mais sombrio. A floresta me afogava, ficava mais densa, e eu perdida, fugindo não sei de que. Medo e fobia.
A certa altura do percurso, outros seres se juntavam ao meu passo, eles também corriam, mais aflitos que eu. Pareciam saber porque fugir. Medo se intensificou, instintivamente, me juntei ao pânico coletivo.
Cheguei a uma clareira, havia umas amarrações feitas em bambu. As pessoas sem rosto, aqueles que corriam comigo diziam aos berros.


Prendam-se aqui, não há mais como fugir!

Fique perdida, não sabia o que fazer. Alguns mais desesperados que eu, se adiantaram e subiram nos lugares mais altos. Para mim sobrou um, muito desajeitado, que além de ser próximo ao chão, não protegia meu corpo de forma alguma. E eu assim deitei: de barriga para baixo, a cabeça... quase o troco todo a mostra, as pernas soltas sem proteção, com as mãos esticadas segurando os bambus finos, que de tão frágeis parecia que iam arrebentar a qualquer instante.
Depois silêncio, meu olhos procuravam na floresta, o que me fazia sentir aquilo. Foi quando percebi que não consegui ver nada, tudo era escuridão e silêncio. Eu também não tinha mais olhos.
Segundos depois, pude sentir a presença de algo grande, arfando imponente. Era o lobo. A criatura se aproximava, não consegui ver com os olhos, mas, de alguma forma, eu via através dos sentidos.
O lobo se aproximou, eu sentia a respiração da criatura diretamente em meu rosto. Lembrei das palavras: - Lobos sentem cheiro do medo.
A criatura abocanhou meu ombro direito, o cheiro de sangue, o calor, a dor. A coisa rosnou, fungou, balançou a cabeça, dilacerando minha carne. Tentando extrair de mim o grito, tentando sorver meu medo.
Não havia medo. Eu sentia prazer. Fiquei calada, rendida. Não me importava em ser consumida, a sensação era confortável, como se a vida se completasse assim. Não me importava se tudo terminasse ali, na verdade, agora acordada, com os pensamentos convulsos, vejo que ser devorada não era o fim, era o início de mim mesma. Se eu fosse devorada pelo lobo, eu seria parte dele. Minha carne seria sua carne, eu seria o lobo também. Forte, brutal, imponente!
O lobo, me soltou, satisfeito por eu não me render por tão pouco. A criatura deu meia volta e se foi.  


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Confessionário

Fui criada, no seio de uma família de cultura japonesa tradicionalista e católica. No inicio da educação, dos princípios e preceitos cristãos, me martirizava por não conseguir resistir ao pequenos prazeres inocentes que a masturbação proporcionava.

Os atos se tornaram um vicio, os pensamentos sujos e pecaminosos sempre me conduziam ao outro lado do abismo, mal eu sabia, em inocência de criança, que o mundo de fato era assim como sou.

Primeira comunhão, segundo ritual de passagem dentro da crença católica. Em meus 11 anos, fui enviada a um retiro pastoral, a preparação para momento tão importante da vida de uma criança religiosa.
E cá lá em seus momentos, chega a hora da primeira confissão: a libertação e absolvição dos pecado para uma vida em comunhão com Cristo! Pensa-se, o que uma criança de 11 anos tem a confessar? Uma ofensa feita ao pai e mãe? Uma briga de escola? Um palavrão? Um mau comportamento? Ah, os meus pecados, o meu comportamento não se enquadravam a época, nenhuma das alternativas me cabiam, minha sujeira era a mais deliciosa!
Antes a palestra do que são pecados, do que deve ser arrependido e confessado. Que atos perversos devem receber absolvição.  Cá entre meus botões, nada daquilo dito se encaixava, minha geração era diferente da que temos hoje, a sexualidade ainda não era tão exposta.
Sendo assim, vai a criança cordeiro para o abate. Entro na sala preparada para, nada de extraordinário. A memória visual só me deixou recordações de duas cadeiras, uma vazia outra já ocupada pelo padre. O padre era jovem, olhos negros firmes e serenos, os cabelos pretos, o rosto andrógeno, o corpo esquio e esbelto. Não tinha desejos pelo corpo, não compreendia nada, mas os olhos, a forma como olhava, aquilo era diferente.
Primeiro ato, não sabia ao menos o que fazer, sendo assim fui conduzida:

- Ofendeu teu pai ou tua mãe?
- Magoou algum colega?
- Disse palavões?

Perguntas comuns, até ai soube me sair bem, sem sustos. Pensei que seria bem pior, meus segredos guardados seriam expostos, e eu seria massacrada, como tantas vezes fui repreendida quando pega em flagra por meus pais.
O padre se ajeita, e mais uma vez começa os questionamentos que tanto temia que viessem.

- Filha, você se toca?
- Você se toca, lá em baixo?
- Quando foi a ultima vez?
- Como você se toca?
- Diga-me minha filha, o que você sente?

Lembro da vergonha em responder cada pergunta, o rosto queimando, eu ali, sendo aberta, dilacerada.
O mais estranho de tudo, era o prazer em saber que outro sabia, era o prazer em dizer.
Limpei as lágrimas dos olhos, e com a cabeça baixa pude perceber uma pequena saliência nas calças do podre padre. Já tinha visto isso antes, em minhas bisbilhotagens pelas frestas das portas, pelos buracos de fechaduras. Observava os pais, os tios, os primos, qualquer um que desse chance, sou uma voyeur desde criança. Seguindo as imagens e impressões já vistas, bem sabia o que vinha depois das saliências...corpos se roçando, os suspiros que não sabia o que eram... lembravam muito o gemido da dor, a agonia.
O padre puxou a cadeira para mais perto, colocou meu rosto em suas mãos, carinhosamente limpou meus olhos, e aproximou meu rosto do seu. Os grandes olhos negros de deus me fuzilavam, o medo dilacerava minhas entranhas.
Fechei os olhos, e senti o macio da boca que beijava a minha, o primeiro beijo, a língua molhada forçando meus lábios a se abrirem, sentir a serpente maleável, quente e úmida explorando minha boca pequena, tentando brincar com a minha. As mãos apertando a carne dos braços, deslizando pelos meu projetos de peitinho que ainda não haviam despontado, os leves beliscões. Era criança demais para compreender, mas humana o suficiente para sentir.
A última palavra, olhava a boca do padre a proferir: Criança, não há pecado!
Afastou o corpo para longe do meu, suspirou profundamente e me mandou rezar vários pais-nossos e infinitas ave-marias. Sai da sala confessionário muda, paralisada, deus havia beijado meus lábios e me enchido de vontades.

Lembro ainda hoje, a noite, enquanto todos dormiam no seminário. Eu queimava em febre, desejava a boca, os dedos do padre ali, onde eu sempre colocava. Fechei as perninhas em torno da mão e roçei até sentir aquilo, que fazia a respiração acelerar, o corpo tremer, o coração bater, a alma se consumir.

Talvez seja por isso que durante anos a fio, na adolescência, entrava em igrejas, catedrais gigantes e pomposas e sentia frisson em me masturbar escondida nos confessionários, ou me roçar sentada diante do altar. Totalmente profana e vil!


sábado, 10 de setembro de 2011

Entre fissuras e fendas no tempo

Na eterna busca pelo que é, por seu significado e seu papel, o Homem, um órfão cósmico, precisa saber que a estrada deve ser buscada acima dele.
Por Loren Eiseley

Quando eu era garoto - naquela idade indefinida mas importante em que se começa a perguntar: quem sou eu? Porque estou aqui? Que espécie é a minha? O que está crescendo? O que é o mundo? Por quanto tempo vou viver nele? Para onde irei? - , encontrei-me caminhando com um amiguinho por uma ponte ferroviária alta, que se estendia sobre o riacho, uma ponte rústica e uma estrada. Podíamos olhar temerosos, por entre os dormentes, para os bancos de areia e as ondulações na água que brilhava uns 15 metros abaixo. Estávamos também fazendo uma coisa proibida, contra a qual nossos pais sempre nos advertiam. Não deveríamos ser pegos por um trem na ponte preta. Algo terrível podia acontecer, uma coisa chamada morte.
Do pilar de sustentação da ponte olhamos para a água, lá embaixo, e vimos entre os seixos a forma de um animal que só conhecíamos de livros ilustrados – uma tartaruga, uma enorme tartaruga castanho – avermelhada. Deslizamos aterro abaixo para observá-la mais perto. Da pontezinha que ficava cerca de 1 metro acima do riacho, vi que a tartaruga, cujas lindas riscas brilhavam ao sol da tarde, não estava viva e que suas patas eram movidas ao léu pela impetuosidade da água. A razão de sua morte era evidente. Não muito tempo antes de subirmos até o elevador ferroviário, alguém que se distraía com um rifle de repetição tinha pontilhado a carapaça da tartaruga com buracos de bala e seguira seu passeio.
Meu pai me explicara certa vez que era preciso muito tempo para fazer uma tartaruga grande, muito anos mesmo, à luz do sol, na água e na lama. Virei a antiga criatura de patas para cima e passei os dedos pela conha desenhada, com suas pobres patas se movendo grotescamente. A pergunta surgiu espontaneamente. Porque o homem tinha que matar uma coisa viva que jamais poderia ser substituída? Depositei a tartaruga na água e dei-lhe um empurrãozinho. Ela entrou na corrente e começou a derivar. “Vamos para casa”, disse ao meu companheiro. A partir daquele momento, acho que comecei a crescer.
“Papai”, disse eu à noite, junto ao lampião da nossa cozinha, “Conte-me como os homens vieram parar aqui?” Meu pai se deteve. Como muitos outros pais da época, estava cansado ao fim de longas horas de trabalho, não tinha muita instrução, mas possuía uma voz bonita e sonora e nascera numa fazenda na fronteira. Conhecia todo ritual com que os índios das planícies começavam uma longa história.
“Filho”, disse ele, tomando como nosso modelo de outro povo, “era uma vez um pobre órfão”. Disse isso de tal jeito que me sentei a seus pés. “Era uma vez um pobre órfão que não tinha ninguém que lhe ensinasse seu caminho e seus costumes. Às vezes eram os animais que os ajudavam, às vezes eram os seres sobrenaturais. Mas, acima de tudo, uma coisa era evidente. Ao contrário de outros ocupantes da Terra, ele tinha de ser ajudado. Não conhecia seu lugar, tinha de encontrá-lo Às vezes era arrogante e tinha de aprender a humildade, às vezes era covarde e era preciso que lhe ensinassem a valentia. Algumas vezes ele não entendia sua mãe Terra e sofria por isso. Os antigos que passavam fome e tinham visões no alto da montanha sabiam essas coisas. Agora todos tinham partido, e com eles partira a mágica. O órfão estava sozinho; tinha de aprender por si mesmo; era uma escola dura.”
Meu pai desgrenhou-me os cabelos, tocou delicadamente meu coração. “Você vai aprender a tempo que há muito sofrimento aqui”, disse. “Os homens o farão sofrer, o tempo o fará sofrer, e você tem que aprender a suportar isso; não suportar sozinho, mas tomar-se melhor pela sabedoria que poderá adquirir se prestar atenção, ouvir e aprender. Não se esqueça da tartaruga, nem dos métodos dos homens. Eles são todos órfãos e caminham sem rumo; fazem coisas erradas. Procure enxergar melhor.”
“Sim, papai”, respondi, e acredito que foi assim que passei a estudar os homens, não os homens da história escrita, mas os ancestrais de antes, muito antes de qualquer escrita, antes do tempo tal como conhecemos, antes da forma humana como é conhecida hoje. Meu pai estava certo quando me disse que os homens eram órfãos, vivendo em eterna busca. Tinham pouca coisa, no tocante a instinto, para instruí-los; tinha percorrido uma longa e estranha estrada no Universo; e tinham atravessado mais de uma ponte negra, ameaçadora. Havia ainda outros caminhos a transpor, e cada qual se tornava mais perigoso à medida que se ampliava o nosso conhecimento. Por ser verdadeiramente um órfão e não estar restrito a uma única maneira de viver, o homem era, em essência, um destruidor de prisões. Mas, na ignorância, seu próprio conhecimento o levava às vezes de uma terrível prisão para outra. O problema final seria, pois, libertar-se, ou seria harmonizar seu intelecto devastador e seu coração? Todos conhecimento registrado em grandes livros diz respeito direta ou indiretamente a esse problema. Ele é o problema de todo homem, pois, até o homem indiferente faz, sem saber, seu próprio julgamento insensível.
Muito tempo atrás, contudo, em um dos Manuscritos do mar Morto escondidos no deserto judaico, um escriba desconhecido escrevera: “Não existe nenhum homem capaz de contar a história inteira.” Essa frase contém também a advertência de que o homem é um órfão de origens incertas e final indefinido. Tudo que as ciências arqueológicas e antropológicas podem fazer é pôr diante do homem um cristal um tanto defeituoso e dizer: foi assim que você surgiu, estes são os perigos que o ameaçam agora; em algum lugar, vagamente vislumbrado a distância, está seu destino. Que Deus o ajude, você é um órfão cósmico, um mágico que faz malabarismos com símbolos, na maioria das vezes imaturo e desatento aos perigos que corre.
Leia, pense, estude, mas não espere que isso o salve sem humildade no coração. Disto os antigos já sabiam há muito tempo, vagando sob as estrelas pelos grandes desertos. Isso eles procuraram saber e transmitir. Esta é a única esperança ao homem.
O que foi que nós observamos que poderia estar enterrado, como estiveram enterrados os Manuscritos do mar Morto durante 2 mil anos, e surgiu dentro de um cântaro para benefício do homem, breves palavras que poderiam ser contidas num rolo de cobre ou numa folha rota de pergaminho? Esses são, a meu ver, os únicos pensamentos que poderíamos sensatamente estabelecer como verdade, hoje e no futuro. Por um longo tempo, durante muitos, muitos séculos, o homem ocidental acreditou no que poderíamos chamar de o mundo existente – da Natureza, como forma, era vista como uma constante sob o disfarce tanto animal quanto humano. Ele acreditava na crianção instantânea do seu mundo por Deus, acreditava que a duração saria muito curta, correspondente a uma estampa em que se desenrola o breve drama da queda do homem de um estado divino e de uma redenção.
O termo terreno era um pequeno parêntese na eternidade. O homem vivia com essa crença, seu pequeno Cosmos e centrado no homem. Então, a partir de cerca de 350 anos atrás, pensamentos não ousados desde o tempo dos filósofos gregos começaram a penetrar na consciência humana. Eles podem ser sintetizados pela frase de Francis Bacon: “Este é o fundamento de tudo. Não no cabe imaginar ou sopor, mas descobrir o que a Natureza faz ou pode ser levada a fazer”.
Nos anos seguintes, quando a experimentação e a observação científica se tornaram correntes, uma grande mudança começou a atravessar o pensamento ocidental. A concepção que o homem tinha de si mesmo, e de seu mundo começou a se alterar de maneira irreversível. “Tudo está em pedaços, foi-se toda a coerência”, exclamou o poeta John Donne, contemporâneo de Bacon. O mundo existente estava desmoronando nas bordas. Estava se partindo como uma balsa mal pregada numa torrente – uma torrente de ritmo incrível. Era, de fato, uma nova natureza, compreendendo um passo incrustado no presente e um futuro ainda por vir.
Primeiro, Bacon, discerniu um mundus alter, um outro mundo diferente, que podia ser extraído da Natureza pela intervenção do homem – o mundo que nos cerca e nos perturba hoje. Depois, gradualmente, profundezas de tempo de imensa magnitude começaram a substituir, no final do século XVIII, o calendário cristão. O espaço, de um candelabro de estrelas que nos envolviam, começou a se largar até o infinito. A Terra foi reconhecida como um simples pontinho arrastado em torno de uma estrela pequena, ela própria girando em torno de uma imensa galáxia composta de inúmeros sóis. Mais e mais além, a bilhões de anos-luz, outras galáxias brilhavam através de nuvens errantes de gás e poeira interestelar. Finalmente, e talvez o mais violento de todos os golpes, o mundo natural deste momento provou-se uma ilusão, uma fantasia do breve tempo de vida do homem. Novidades orgânicas revelaram-se nos estratos da Terra. O homem não tinha vindo sempre aqui. Ele fora precedido, nos 4 bilhões de anos da história do planeta, por moluscos flutuantes, estranhas florestas de samambaias, imensos dinossauros, lagartos voadores, mamíferos gigantes cujo ossos jazem sobre as pedras caídas de placas de gelo continentais desaparecidas.
O órfão gritou em protesto, quando o frio do espaço nu lhe penetrou os ossos: “Quem sou eu?”. E mais uma vez a ciência respondeu: “Você é uma criança trocada. Está ligado, por uma cadeia genética, a todos os vertebrados. A questão é que você carrega no corpo e no cérebro as feridas ainda mais doloridas da evolução. Suas mãos são nadadeiras reformadas, seus pulmões vêm de uma criança que arfava num pântano, seu fêmur foi aprumado à força. Seu pé é uma pata trepadora remodelada. Você é uma boneca de trapo recosturada com as peles dos animais extintos. Muitos anos atrás, 2 milhões de anos talvez, você era menor, seu cérebro não era tão grande. Não temos certeza de que era capaz de falar. Setenta milhões de anos antes disso, era uma criança trepadora ainda menor, conhecida como tupaiideo. Tinha o tamanho de um rato. Comia insetos. Agora voa até a Lua”.
“Isso é um conto de fadas”, protestou o órfão. “Eu estou aqui, vou olhar no espelho”.
“É claro que é um conto de fadas”, disseram os cientistas, “mas o mundo e a vida também são. É isso que nos torna verdadeiros. Viver é partir a qualquer momento. É por isso que somos todos órfãos. É por isso que você tem que encontrar seu próprio caminho. A vida não é estável. Tudo que vivem está tropeçando por entre fissuras e fendas no tempo, mudando à medida que ele passa. Outras criaturas, no entanto, têm instintos que lhe proveem a subsistência, buracos onde se esconder. Não podem fazer perguntas. Uma raposa é uma raposa, um lobo é um lobo, mesmo que isso, também, seja uma ilusão. Você aprendeu a fazer perguntas. É por isso que é um órfão. Você é a única criatura no Universo que sabe o que o Universo foi. Agora você tem que continuar a fazer perguntas enquanto está mudando o tempo todo. Vai perguntar em que se transformará. O mundo já não o contentará. Você tem de encontrar seu caminho, seu próprio eu verdadeiro.”
“Mas como eu posso?”, chorou o órfã, escondendo a cabeça. “Isso é magia. Não sei o que sou. Já fui coisa demais.”
“De fato foi”, disseram em uníssono todos os cientistas. “Seu corpo e seus nervos foram arrastados por todo lado e retorcidos no longo esforço de seus ancestrais para permanecerem vivos, mas agora, órfãozinho que é, você tem de conhecer um segredo, uma mágica secreta que a Natureza lhe deu. Nenhuma outra criatura no planeta a possui. Você usa a linguagem. Você é um malabarista de símbolos. Tudo isso está escondido em seu cérebro e é transmitido de uma geração a outra. Você freia o tempo, em sua cabeça os símbolos que significam coisas no mundo exterior podem voar desimpedidos. Você pode combiná-los diferentemente num novo mundo de pensamento ou segurá-los obstinadamente durante toda uma vida e transmiti-los a outros.”
De fato é assim, de palavras, de uma lufada de ar, que é feito tudo que é unicamente humano, tudo que é novo de uma geração para outra. Mas lembre-se do que foi dito sobre as feridas da evolução. O cérebro é muito antigo, pelo menos parte dele, pois as partes foram depositadas em sequência, como estratos geológicos. Profundamente enterrados debaixo do cérebro co que raciocinamos, há antigos centros de defesa prontos para a raiva. Prontos para a agressão, prontos para a violência, sobre os quais o neocórtex, o cérebro novo, tenta exercer controle. Assim, há momentos em que o órfão é um ser dividido em luta contra si mesmo. Os homens perversos sabem disso. Às vezes conseguem explorar isso em seu próprio proveito político. Homens reunidos em multidões, sujeitos aos mesmos estímulos, reagem rapidamente a uma emoção que, na tranquilidade de suas casas, poderiam analisar com mais cuidado.
Os cientistas descobriram que os próprios símbolos que povoam nosso cérebro podem contem perigos. Convém ao pensador classificar uma ideia com uma palavra. Às vezes isso pode levar a um processo chamado hipostático, ou de reificação. Tome a palavra “Homem”, por exemplo. Há ocasiões em que é usada para categorizar brevemente a criatura, suas histórias, suas características abrangentes. A partir disso, se não prestarmos atenção ao que queremos dizer, torna-se fácil falar de todos os homens como se fossem uma só pessoa. Na realidade, os homens vêm buscando esses homem irreal há milhares de anos. Encontraram-no banhado de sangue, encontraram-no na cela do eremita, ou em meditação sob o pipal, a árvore sagrada; encontraram-no no gabinete do médico ou iluminado pelas chamas satânicas da primeira explosão atômica.
Na realidade ele nunca foi encontrado. A razão é muito simples: os homens andaram buscando o homem com letra maiúscula, uma criatura imaginária a partir de fragmentos díspares no laboratório da imaginação humana. Assim, alguns homens podem percebê-lo e vê-lo como totalmente bondoso ou inteiramente perverso. Estaríamos errados. Permanecem errados enquanto dão vida a essa criação e chamam de “Homem”. Não existe Homem algum; existem apenas homens: bons, maus, misturas inconcebíveis, estragadas por sua constituição genética ou aperfeiçoada por seu meio social. Contanto que vivam, são homens, potencial abundante e não exaurido de ação. Os homens são excelentes objetos de estudo, mas a partir do momento em que dizemos “Homem” corremos o perigo de nos perder num pântano de abstração.
Se examinarmos nossa história fóssil, talvez não tenhamos sequer o direito de chamar a nós mesmos de verdadeiros homens. A palavra carrega implicações sutis que se ampliam além de nós na corrente do tempo. Se um remoto ancestral semi-humano, mas capaz de falar, tivesse tido um nome para sua espécie, como muito provavelmente tinha, e apenas suponho que esse nome fosse “homem”, iríamos nós agora aprovar seu uso, seu atributo imobilizante? Penso que não. Talvez nenhum verdadeiro órfão deseje ser chamado de outra coisa senão de viajante. O homem no sentido cósmico atemporal pode não estar aqui.
O problema fica particularmente claro à luz de uma descoberta recente e estarrecedora. Em 1953, James D. Watson e Francis H. C. Crick descobriram a estrutura do alfabeto químico que constitui tudo aquilo que vive. Era uma estranha escada em espiral no interior da célula, muito mais organizada e complexa do que haviam imaginado os biólogos do século XIX; os minúsculos tijolos, constantemente reembaralhados a cada acasalamento, tinham ao mesmo tempo uma estabilidade espantosa e, paradoxalmente, no curso de longos períodos de tempo, o poder de alterar de maneira irreversível a estrutura viva de uma espécie. A coisa chamada homem fora outrora um arbusto num trecho de floresta; agora manipula em seu cérebro símbolos abstratos a partir dos quais nascem arranha-céus, pontes cortam o horizonte, a doença é dominada, a Lua é visitada.
Os biólogos moleculares passaram a indagar se o maravilhoso alfabeto vivo que jaz na raiz da evolução pode ser manipulado em benefício do homem. Algumas variedades de plantas e animais domésticos já foram aperfeiçoadas. Agora finalmente o homem começou a divisar seu possível caminho para o futuro. Seria possível, por meio de delicadas excisões e instruções, fazer o misterioso alfabeto que carregamos em nossos corpos acelerar nosso avanço rumo ao futuro? Nossa concentrações urbanas, com todas as aberrações e defeitos, já são orientadas para o futuro. Por que não nós mesmos? Estará em nosso poder perpetuar mentes excepcionais ad infinitum? A quem caberá a seleção desse homem do futuro? Aí está o problema. Qual de nós pobres órfãos à beira da estrada, mesmo entre aqueles que perscrutam sabiamente através do microscópio eletrônico, pode estar seguro quando o caminho para o futuro? Sem a ajuda da Natureza, poderia o peixe ter encontrado o caminho para o réptil, o réptil para o mamífero, o mamífero para o homem? E como o homem foi dotado da palavra? Poderiam os homem escolher seu caminho? De repente eleva-se diante de nós a mais negra, a mais aterradora ponte da nossa existência. Que abismos ela transpõe.
Os biólogos nos dizem que, ao longo de todo o tempo, mais de 90% das espécies viveram no mundo pereceram. As espécies mamíferas, em particular, não se distinguem pela longevidade. Se o bisturi e o raio laser que amputam nos laboratórios fossem postos na mão de uma pessoa qualquer, um pobre órfão qualquer, que faria esta pessoa? Se confiante, iria reproduzir apenas a si mesma? Se cruel, iria por meios indiretos conseguir destruir o mundo vivo? Se incerta quanto ao caminho, iria reproduzir a dúvida? “Nada é mais vergonhoso que uma afirmação sem conhecimento”, pronunciou certa vez Cícero, o grande estadista e orador romano, como se tivesse antevisto esta ponte do orgulho humano – o orgulho de um deus incapaz de antever.
Após os desastres da Segunda Guerra Mundial, quando o sonho do progresso eterno morreu na mente do homem, um órfão deste século escreveu um poema sobre as grandes extinções reveladas nas pedras do planeta. Ele conclui assim:


Não sei ao certo se amo
as crueldades encontradas em nosso sangue
de alguma árvore do mal perdida em nosso inícios.
Possam os deuses perdoar e nos lacrar profundamente quando tombamos,
Possa o inofensivo arganaz insinuar-se nas prisões
onde dermos livre curso à nossa vontade
e folhas vermelhas tombar sobre elas.
Dachau, Auschwitz, esses lugares por toda parte.
Pudesse eu rezar, rezaria por muito por isso.


Pode-se concluir que o poeta era um homem da dúvida. Não chorou pelo homem; confiava em que folhas , coelhos e aves canoras continuariam a viver, assim como, muito tempo antes, uma víbora arbórea esquecera alegremente os répteis dominantes. O poeta era um órfão em circunstâncias vergonhosas, fazendo uma pausa à beira da estrada para rezar, porque ele rezou, embora o negue; que Deus perdoe a todos nós. Era um homem em dúvida quanto ao caminho. Era o eterno órfão da história de meu pai. Que nos disponhamos então, como órfãos similares que percorremos este longo caminho através do tempo, a assumir os riscos da viagem inacabada. Devemos saber, como sabia aquele infeliz bando de homens na Judéia, ao enterrar o cântaro, que a estrada do homem deve ser buscada acima dele. Não existe nenhum homem capaz de contar a história inteira. Após o breve lapso de 2 mil anos, quem negaria esta verdade?

Loren Eiseley (1907-1977), antropólogo, foi uma espécie de estranho no ninho da comunidade científica. Escrevia poesia e, sobretudo, dominava um eloquente estilo de prosa poética, bastante incomum entre os profissionais de sua área. Dois de seus livros mais impressionantes são The Immense Journey (1957) (A imensa viagem) e sua autobiografia, All the Strange Hours (1975) (Todas as horas estranhas). O presente ensaio que se segue, intitulado “The cosmic orphan” (O órfão cósmico), aparece na 15 edição da Enciclopédia Britânica, como Introdução da parte quatro: “Human Life” (Vida Humana).

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O caso dos cérebros numa cuba

Eis uma possibilidade de ficção científica discutida pelos filósofos: imagine-se que um ser humano (pode imaginar que é você mesmo) foi sujeito a uma operação por um cientista perverso. 0 cérebro da pessoa (o seu cérebro) foi removido do corpo e colocado numa cuba de nutrientes que o mantém vivo. Os terminais nervosos foram ligados a um supercomputador científico que faz com que a pessoa de quem é o cérebro tenha a ilusão de que tudo está perfeitamente normal. Parece haver pessoas, objectos, o céu, etc.; mas realmente tudo o que a pessoa, (você) está experienciando é o resultado de impulsos electrónicos deslocando-se do computador para os terminais nervosos. 0 computador é tão esperto que se a pessoa tenta levantar a mão, a retroacção do computador fará com que ela "veja" e "sinta" a mão sendo levantada. Mais ainda, variando o programa, o cientista perverso pode fazer com que a vítima "experiencie" (ou se alucine com) qualquer situação ou ambiente que ele deseje. Ele pode também apagar a memória com que o cérebro opera, de modo que à própria vítima lhe parecerá ter estado sempre neste ambiente. Pode mesmo parecer à vítima que ela está sentada e a ler estas mesmas palavras sobre a divertida mas completamente absurda suposição de que há um cientista perverso que remove os cérebros das pessoas dos seus corpos e os
coloca numa cuba de nutrientes que os mantém vivos. Os terminais nervosos é suposto estarem ligados a um supercomputador científico que faz com que a pessoa de quem é o cérebro tenha a ilusão de que...
Quando este tipo de possibilidade é mencionado numa conferência sobre teoria do conhecimento, o propósito, evidentemente, é levantar de uma maneira moderna o clássico problema do cepticismo relativamente ao mundo exterior. ( Como é que você sabe que não está nesta difícil situação?) Mas esta situação difícil é também um dispositivo útil para levantar questões sobre a relação mente/mundo.
Em vez de ter apenas um cérebro na cuba, podíamos imaginar que todos os seres humanos (talvez todos os seres sencientes) são cérebros numa cuba (ou sistemas nervosos numa cuba no caso de alguns seres apenas com um sistema nervoso mínimo considerado já como "senciente"). Naturalmente, o cientista perverso teria que estar de fora - estaria? Talvez não haja nenhum cientista perverso, talvez (embora isto seja
absurdo) aconteça simplesmente que o universo consista num mecanismo automático cuidando de uma cuba cheia de cérebros e sistemas nervosos. Agora suponhamos que o mecanismo automático está programado para nos transmitir uma alucinação colectiva, em vez de uma quantidade de alucinações individuais não
relacionadas. Assim, quando me parece estar a falar consigo, a si parece-lhe estar a ouvir as minhas palavras. Evidentemente, não é o caso de as minhas palavras atingirem realmente os seus ouvidos - porque você não tem ouvidos (reais), nem eu tenho uma boca e língua reais. Antes, quando eu produzo as minhas palavras, o que acontece é que os impulsos eferentes deslocam-se do meu cérebro para o computador, que ocasiona que eu "ouça" a minha própria voz pronunciando essas palavras e "sinta" a minha língua mover-se, etc., e que você "ouça" as minhas palavras, me "veja" a falar, etc. Neste caso, estamos, num certo sentido, realmente em comunicação. Não estou enganado sobre a sua existência real (apenas sobre a existência do seu corpo e do "mundo externo" fora dos cérebros). De um certo ponto de vista, nem sequer importa que "o mundo inteiro"
seja uma alucinação colectiva; porque, afinal, você ouve realmente as minhas palavras quando eu falo consigo, mesmo que o mecanismo não seja o que supomos que ele é. (Evidentemente, se fôssemos dois amantes fazendo amor, em vez de apenas duas pessoas levando a cabo uma conversa, então a sugestão de que se tratava apenas de dois cérebros numa cuba podia ser perturbadora.)
Quero agora pôr uma questão que parecerá muito tola e óbvia (pelo menos para algumas
pessoas, incluindo alguns filósofos muito sofisticados), mas que nos levará a autênticas
profundezas filosóficas bastante rapidamente. Suponha-se que toda esta história era de
facto verdadeira. Poderíamos nós, se fôssemos assim cérebros numa cuba, dizer ou
pensar que o éramos?

Hillary Putnam, Razão, Verdade e História, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992,
pp. 28-29.