"Escreva para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. E isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar o dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Escrever - pode eliminar essa sensação de gratuidade no existir, de coisas o tempo todo fugindo e se transformando em passado. Então vai, escreve e diz tudo e rasga o coração, as vísceras, expõe tudo, grita, esperneia - no papel. Isso é escrever. Tirar sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto - exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te." Caio Fernando de Abreu.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Relembrar

Quando criança, meus pais nos levavam todos os finais de semana a casa de meus avós japoneses. A fazenda era enorme, infinitas possibilidades, mas eu nunca me importei com as outras crianças, nem com as brincadeiras propostas por elas.
Gostava mesmo era de fuçar pela casa grande, ficava por horas perdida na biblioteca. Revirando livros e livros, ver as imagens, ilustrações, os jogos de tabuleiro, os bonecos kokeshi fabricados em argila pelo meu odíchan (avô). Tudo aquilo, era mágico e divertido demais para me render a presença das outras crianças, queria estar só. Minha paixão por livros começou cedo, mesmo sem saber ler. Me consumia entre as páginas, entre as letras e  infinitas imagens.
E assim, em uma das explorações pela casa, fui fisgada pela pilha de livros e revistas de um dos quartos. Não tinha ideia de quem era, apenas queria ver, era irresistível folhar, sentir o cheiro de papel, das páginas antigas, dos livros.
Sentei na cama próximo a pilha e comecei a orgia visual. Entre um livro e outro, descobri escondidos vários mangás japoneses, ilustrados de forma tão deliciosa, que meus olhos devoraram cada páginas. O que anos mais tarde, conheci como hentai.
Lembro que foi a minha primeira masturbação ilustrada, quando me vi de sentada já tinha passado a deitada. Por instinto me roçava entre os lençóis, o desconhecido consumia, vontades incompreendidas e nunca sentidas com tanta intensidade tomavam o controle de tudo. Assim, aprendi a usar os dedos, apertando, dando tapinhas sobre a pele vestida. Feito bichinho fui me enroscando, roçando, e suspirando até sentir “aquilo”.
Precisa dos mangás para mim, pelo menos um. Não poderia deixar para traz. Lembro de ter roubado um, e a cada semana eu trocava por outro e por outro. Passei meses assim, até ser pega mais tarde!
Meu tio, dono do quarto e dos mangás, deveria estar em seus 20 e poucos anos. Quando percebeu, ficou a me observar por semanas fazendo aquilo, o ritual! Certa vez, quando adentrei o quarto feliz e desesperada por mais, ele lá estava, esperado. Eu moleca de tudo, morrendo de vergonha, já tinha sido pega outras vezes por meus pais, e agora aquilo! Sabia o que me aguardava, provavelmente levaria uma bela surra e uns castigos eternos.
O inesperado se fez. A pilha de mangás sobre a cama, os olhos calmos e gentis, sem questionamentos de certo ou errado, de pecado ou santidade, sem repreender meus atos, ele me chamou para me sentar ao seu lado. Levei bronca por pegar o que não me pertencia, mas ainda assim,  me senti acolhida e confortável pela forma tranquila de identificação com que me olhou. Suas palavras: um dia também fui assim menina, um dia te explico tudo.
E assim foi, na adolescência foi meu orientador, conselheiro e amigo. Na fase adulta, meu companheiro de viagens sobre duas rodas, meu confessor de putarias desmedidas, de histórias absurdamente deliciosas, o libertino puro, até o fim!
Mesmo com tantas coerções, julgamentos.. ainda assim, não deixo as vontades aprisionadas, nem os desejos latentes escondidos, sou tímida claro, ele estava me ajudando a guspir na moral imposta, estava me remodelando para uma vida livre!
Se há alguém para agradecer, por me fazer assim, por eu me aceitar assim, esse alguém é ele!
Faz 5 anos que se foi, e é impossível não relembrar, não sentir falta!



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